quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CANTARES DE SALOMÃO


I - SULAMITA SUSPIRA POR SEU AMADO AUSENTE (1:1-2:7)
1. O Título (1)

Cântico dos Cânticos, que é de Salomão. (2) A expressão Cântico dos Cânticos é muito comum na Bíblia como "Santo dos Santos" ou "vaidade das vaidades".  Em nosso texto, significa o mais excelente "O mais excelente Cântico, o Cântico supremo".  Salomão escreveu 1.005 cânticos, e este deve ser o mais excelente, segundo o ponto de vista de ser Salomão o seu autor (I Reis 4:32).  Stuart pensa que os cinco que passam de 1.000 estão representados neste Cântico dos Cânticos ou nas suas cinco divisões. Outro diz que este título representa "o melhor Cântico" das Escrituras, o mais elevado e sublime, e ainda outro afirma que só a experiência pode ajudar a entendê-lo.  De qualquer modo, este poema recebe de todos os quadrantes do pensamento humano os mais elevados elogios e as mais calorosas recomendações.  Vão mal os que vêem em Cânticos apenas uma forma de cantar o amor sensual de um homem e de uma mulher, coisas ainda recomendáveis, mas Cânticos vai tanto acima desta possibilidade como, o sol acima de nossa cabeça.

O emprego do pronome relativo aqui, e que não segue no resto do livro, tem levado alguns escritores a suporem que o título foi posto por outra mão que não a do autor. É uma forma artificiosa de interpretar o título; não vemos muita plausibilidade nesta alegação, mesmo que pareça artificial esta colocação, que é de Salomão.  No texto hebraico o título é Shir Hach Shirim, e na versão grega, Asma Asmaton, que dá em latim Canticum Canticorum. É a sublimidade de um Cântico, e, quem quer que seja o autor, ele teve a impressão de estar dando alguma coisa sublime.  Isso também favorece a suposição de que não se trata de um poema banal, mas de uma obra sublime, e não de uma canção de amor carnal.  Para uma interpretação,

mais razoável, veja-se o esquema seguinte:

1 ) 1:1-2:7 A jovem relembra seu amado no palácio, onde Salomão promete adorná-la de jóias;
2) 2:8-35.  A jovem relembra uma visita feita, certa ocasião, por seu amado, e um sonho que se seguiu a isso.
3) 3:6-4:7.  A jovem é novamente visitada e louvada por Salomão;
4) 4:8-5: 1. Imperturbável, a jovem relembra as palavras do seu amado e antecipa seu dia de casamento com ele;
5) 5:2-6:3.  A jovem relata um sonho e o descreve a seu amado;

6) 6:4-7: 9. A jovem é novamente visitada por Salomão, que faz nova tentativa de conquistar sua afeição;
7) 7:10-8:3.  A jovem, mantendo sua lealdade ao seu amado ausente, anseia por sua companhia;
8) 8:4-14.  A jovem retorna para casa com seu amado, e declara-lhe sua afeição.

Nota: (Extraímos este esboço do Novo Comentário da Bíblia, editado por Edições Vida Nova, S. Paulo).
Apenas para dar uma outra maneira de Interpretar o poema, valemo-nos deste esboço, mas não nos parece muito razoável o seu enredo, nem lhe negamos a sua valia como auxiliar na interpretação.


(1) Os que desejarem uma apresentação admirável da poesia hebraica devem ler o livro do Prof.  S.J. Ribeiro, Cântico dos Cânticos, Casa Publicadora Batista, Rio.
(2) Acreditam muitos comentaristas que o subtítulo, que é de Salomão, fosse colocado tempos depois, e que o original não continha esta frase.  O pronome relativo de fato parece constatar que se trata de uma adição que corre mundo, mas os muitos comentaristas recusam admitir que Salomão tenha sido o autor do livro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Um estudo Exegético e Cientifico da Bíblia: A LOUCURA DO FILHO DO HOMEM

Um estudo Exegético e Cientifico da Bíblia: A LOUCURA DO FILHO DO HOMEM: "Loucura para os gentios. " 1 Coríntios 1:23 O objetivo deste é nos apresentar ao mundo do pensamento gentio na época de Jesus. Foram o...

A LOUCURA DO FILHO DO HOMEM

"Loucura para os gentios. " 
 1 Coríntios 1:23

O objetivo deste é nos apresentar ao mundo do pensamento gentio na época de Jesus. Foram os conceitos e idéias dos gentios que deram origem ao retrato que temos de Cristo? "Os gregos buscam sabe­doria," diz o apóstolo (1 Co 1:22), e ao falar dos gregos ele refere-se ao mundo cultural não judaico daquela época. Paulo achava que o alvo do pensamento gentílico da época era amplamente caracterizado nestas duas palavras: "Busca a sabedoria," e assim a figura ideal concebida por este pensamento deve ter sido a de um "homem de sabedoria." De fato, qual­quer pessoa familiarizada com esse período sabe que a idéia do "sábio" desempenhava papel importante na filosofia greco-romana.
É verdade que esta expressão — o homem de sabedoria — não deve ser considerada em sentido muito estreito. Tal homem se preocupava também com a sabedoria prática. O sábio era caracterizado não apenas por seu conhecimento, mas por todo o seu comportamento e modo de ser. O seu conhecimento tornava o seu modo de vida magnânimo, no­bre e grande — isto é, sábio.
Ora, não pode ser negado que na época de Cristo, Israel compartilha­va em grande parte desse padrão de pensamento, tão generalizado no mundo gentílico. Muita coisa que parecia importante, grandiosa, mag­nânima e sábia para os gentios, era considerada pelos judeus sob a mes­ma luz.1 O mundo cultural naquela época tinha muitas afinidades: um grande acervo de experiências em comum ligava judeus, gregos e roma­nos, a despeito das suas diferenças quanto a outros aspectos. Neste capí­tulo, portanto, só o que era peculiarmente judeu será colocado de um lado. Mas nos assuntos em que os judeus, como filhos daquela época, ti­verem o mesmo conceito que os seus contemporâneos, as suas opiniões deverão ser levadas em consideração; isto é, em relação aos interesses deste exame. Porque devem ter sido eles que, se isso realmente foi feito, construíram o retrato glorificado de Cristo, a partir do material que es­tava à mão, comum a judeus e gentios.
Por conseguinte, estamos interessados no tipo ideal que a humanida­de como um todo — tanto gregos como judeus — criou como símbolo dos seus grandes homens, seus heróis daquela época. Que conceito faziam eles do homem grande e sábio? Aos olhos greco-judaicos — em suma, aos olhos do homem culto daquela época — era Jesus "o homem de sabedoria?" Aqui temos a paleta da qual vieram as cores que pinta­ram a resplandecente figura do Rabi de Nazaré?

***

Foi uma falta de dignidade, de grandeza, de magnanimidade, uma falta de tudo o que se esperava encontrar em um homem sábio, que fez com que Jesus parecesse um louco para o mundo culto da época. E es­ta contradição de tudo o que, para o mundo, parecia marcar um homem como grande, é importante para nós em nossa apologética. Pois ninguém pinta um homem como um escândalo para todo o mundo ver, se deseja glorificá-lo; e se ele deve ser exaltado, ele não pode ser retratado como louco. Embora não possamos nem pensar em usar todo o tesouro que encontra-se aqui, esperando por uma defesa, gostaríamos de enfatizar dois pontos. Jesus parecia louco para eles em Sua atitude para com os homens, e em Seu comportamento diante do destino que Lhe coube.
Segundo este ponto de vista, portanto, consideremos primeiramente a atitude de Jesus para com os Seus semelhantes.

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"Ser sempre o primeiro, e esforçar-se mais do que os outros" é o re­trato que o velho Homero traça do homem magnânimo. "Uma vida de honra ou uma morte coroada pela fama é a ambição de todos os homens nobres," conta Sófocles, fazendo eco ao mesmo pensamento. E de ma­neira semelhante, os israelitas que estavam na posição de nobres, a sa­ber, os Saduceus e fariseus, tentavam tornar sentida a sua influência - mes­mo em assuntos de menos importância como a sua maneira de saudar os outros na rua, ou como o seu lugar à mesa (Mt 23:6-7). "Ser sempre o primeiro, e esforçar-se mais do que os outros!" E Jesus fez isto? Quan­do Ele confessou: "Eu não aceito glória que vem dos homens" (Jo 5:41), aos olhos do mundo Ele Se excluiu da plêiade de mentalidade nobre.
Auto-suficiente e acanhado, o homem de mentalidade elevada, da ma­neira como Aristóteles o via, "segue orgulhosa e calmamente o seu ca­minho." Estabeleça o contraste entre este quadro e a atitude humilde do Filho do homem. De acordo com Aristóteles, é homem de mentali­dade elevada aquele que, "sendo digno de grandes coisas, considera-se semelhantemente digno de grandes coisas." Mas na última noite, Jesus serviu aos Seus discípulos como escravo (Lc 22:27), indo tato longe ao desempenhar esse papel, a ponto de cingir-se com uma toalha e lavar os pés deles (Jo 13:4s.). Essa era atribuição de um serviçal, a obrigação de um escravo.
Aristóteles continua em sua descrição do homem de mentalidade ele­vada: "Ele desfruta com moderação das honras a ele atribuídas por ho­mens grandes e excepcionais, como sendo merecidas, ou como sendo menores do que as que ele merece." Pois bem: Jesus não recebeu mui­tas honras desse tipo; talvez o único testemunho da espécie que Ele expe­rimentou foi quando Maria de Betânia ungiu os Seus pés. Como aquele ato agradou o humilde Jesus! (Mt 26:13). "Mas o homem de mentali­dade elevada desdenha a honra que lhe é atribuída pela populaça, em oca­siões sem importância, pois ele está acima dela," diz Aristoteles. Simão, o fariseu, raciocinou da mesma forma, quando murmurou: "Se este ho­mem fosse profeta, saberia quem é esta mulher, que espécie de mulher é esta que Lhe tocou, e a afastaria dEle." Mas Jesus sabia que espécie de mulher era ela, e conservou-a a Seu lado, alegre com o amor agradeci­do de pessoa tão humilde (Lc 7:39s.). Para desgosto dos fariseus, Ele não desdenhou dos gritos de Hosana das crianças no Templo, como sen­do uma honra muito pequena para ser digna dEle, mas deu proeminência àquele ato sem importância (Mt 21:15s.). Tamanha humildade escanda­lizava o mundo, e Ele parecia ao povo um homem sem valor.
Autoridade, fama, reconhecimento da parte do povo, estas caracte­rísticas formam o brilho do sol que o homem de sabedoria busca. Mas se não o encontra, ele não se humilha de forma alguma. Orgulhosamen­te consciente dos seus méritos, ele se congratula, acariciando-se e admirando-se a si próprio. Os estóicos entendiam muito bem essa atitude. Diz-se que Zeno possuía a dignidade completa do homem culto em com­panhia dos seus superiores, a tal ponto que o Rei Antígones declarou que só uma vez em sua vida ele perdera a calma — em uma conversa com o filósofo. O que dizer a respeito de Jesus? Será que ele fez príncipes perderem a calma? Em certa ocasião ele apresentou-se diante de um rei, e Herodes e seus cortesãos escarneceram do Homem humilde que pare­cia objeto tão fácil da zombaria deles (Lc 23:2)!
Certo renome pode ser adquirido, também, mediante abjuração e re­núncia. Diógenes não é o único cuja vaidade se deixou entrever através dos farrapos com que se vestia. Uma renúncia exagerada sempre atrai aten­ção. Jesus era "como os outros homens" e a Sua pobreza nunca se tor­nou fonte de vaidade. "Como outros homens!" Ele nunca Se empenhou em grandes negócios, mas era incansavelmente fiel em coisas pequenas. "As grandes mentes podem ficar indiferentes aos pequenos acontecimen­tos da vida diária - mas tanto quanto Ele foi capaz, o Maior de todos escolheu a vida diária como Seu lugar de trabalho." A Sua humildade vinha do coração, mas para os Seus contemporâneos isso era sinônimo de falta de dignidade. Ninguém procuraria o "homem de sabedoria" se coberto dessas vestimentas.
Vamos demorar-nos ainda mais um pouco no assunto da humildade de Jesus, encarando-a, agora, de um outro ângulo. Foi especialmente o relacionamento de Jesus com o povo que, aos olhos dos Seus contemporâ­neos, revelou nEle uma falta de dignidade.
Odi profanum vulgus et arceo — Odeio a populaça e a conservo longe de mim, cantou Horácio alguns anos antes do nascimento de Jesus, em um de seus odes mais conhecidos. Aristóteles também, confirma este sentimento, quando fala do seu homem ideal: "Ele é franco porque ama o desdém. E por isso, fala a verdade, exceto quando fala ironica­mente; isto ele faz quando relaciona com a populaça." As vozes judai­cas não ficam caladas a respeito deste mesmo testemunho, pois os fari­seus disseram desdenhosamente: "Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita." (Jo 7:49). Judeus e gentios achavam que era uma mar­ca de eficiência lutar para subir; mas Jesus não lutou nessa direção. O Seu coração Se voltou para as pessoas comuns, simples, sem cultura, de tal forma que Ele agradeceu a Deus por tê-lo revelado aos pequeni­nos (Mt 11:25), e falou como um dos Seus maiores feitos o fato de que o Evangelho é pregado aos pobres (Mt 11:5).
Todavia, aos Seus contemporâneos, parecia que o relacionamento de Jesus com as pessoas que O rodeavam tinha um aspecto ainda pior. Ele não apenas descera de nível, a encontrar-se com o povo humilde e infe­rior, mas também incluiu em Seu círculo pessoas sem honra, que haviam sido marcadas como pecadoras empedernidas (Lc 15:1; 19:8; 7:37). O antigo poeta Teognis já emitira uma advertência contra conexões assim; e um dos versos favoritos de Sócrates dizia: "Nunca se associe a homens ímpios; viva apenas com os virtuosos. Porque você aprenderá virtude com os virtuosos, mas perderá a sua própria razão com os ímpios" (cf. Tobias 4:18).
Contudo, não é possível levantar os que caíram? Os antigos meneavam a cabeça diante dessa possibilidade. "Se um médico tivesse recebi­do de um deus o poder de curar as doenças dos sentidos, e curar o vício da humanidade, a sua recompensa certamente deveria ser rica; porém, nunca mediante a cultura, poderás reformar o vilão, fazendo dele um homem reto" (Teognis).
E como aconteceu com Jesus? Não foi uma condescendência graciosa que Ele mostrou para com essas pessoas decaídas, não houve simulação nEle ao descer da Sua alta posição para ajudá-las. Aos olhos dos orientais Ele não poderia ter mostrado mais clara e definidamente o Seu amor e amizade para com eles do que ao compartilhar da mesma mesa com eles, como Ele o fez, e comer do mesmo prato. Ele ensinou aos Seus discí­pulos: "E em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, indagai quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes" (Mt 10:11). Mas Ele, pessoalmente, o que fez? Ele falou a primeira palavra a um traidor como Zaqueu, e pediu-lhe hospitalidade. Não é de se admirar que os judeus que se mantinham na sua dignidade "murmuraram, dizendo que ele se hospedara com homem pecador" (Lc 19:7; cf. 15:2s.; Mt 9:11; 11:19).
Não podemos encerrar este estudo do relacionamento de Jesus com o povo humilde, sem chamar a atenção para mais dois aspectos deste as­sunto: como Jesus tratou as crianças, e a Sua atitude para com as mulhe­res.
Os gregos gostavam muito de crianças. Mas isso era uma caricatu­ra, ligada com a infâmia que Paulo pune no primeiro capítulo da sua epístola aos Romanos. Há também no Antigo Testamento uma histó­ria envolvendo crianças. Mas quem quer ouvir um conto tão desagra­dável? Quarenta e dois meninos que viviam em Betel, que com disposi­ção caracteristicamente infantil, zombaram da cabeça calva de Eliseu, foram estraçalhados por ursos, em resposta à oração do profeta (2 Re 2:23s.). A atitude de Jesus era incompreensível em um homem sábio ou grande. Ele tinha tempo e afeição para as crianças. "Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis," disse Ele, e em seguida tomou-os em Seus braços e os abençoou (Mc 10:14s.).
E o outro ponto: Ele manteve conversa com uma mulher. Que ho­mem culto entre os judeus, ou que sábio entre os gregos havia desperdi­çado um dos seus elevados pensamentos com uma mulher? Ela teria que ser mulher de dons mentais excepcionalmente notáveis. Mas no ca­so de Jesus a mulher provinha das classes mais baixas da sociedade, era do tipo mais comum, e pertencia a uma raça detestada! Que insensatez do Filho do homem! Em Sua humildade Ele desceu a nível tão baixo no relacionamento com todo mundo, onde quer que fosse, que por fim aos olhos da sociedade da época Ele se excluiu do círculo dos sábios e prudentes.
Porém, este ainda não é o fim da Sua humildade. Há ainda outro as­sunto que levou-o a entrar em conflito com as idéias do Seu tempo, com relação à grandiosidade e dignidade: o de dar e receber.
Aristóteles diz a respeito do homem de mente nobre: "Ele se inclina a conferir benefícios, mas ficaria envergonhado de recebê-los. Pois o primeiro caso é natural ao homem superior, mas o último ao homem inferior... E ele dá mais livremente do que recebe, fazendo desta forma seu devedor o doador do presente." Aristóteles está longe de ser o úni­co na defesa deste conceito. Abraão exibiu estes delicados sentimentos do homem de mente elevada, quando replicou ao Rei de Sodoma: "Na­da tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abraão" (Gn 14:23). Sécu­los mais tarde Eliseu foi movido pelo mesmo sentimento, quando o capitão do exército do Rei da Síria insistiu repetidamente com ele para acei­tar um presente como agradecimento, e ele replicou: "Tão certo como vive o Senhor em cuja presença estou, não o aceitarei." (2 Re 5:16). Diógenes, em sua barrica, era orgulhoso demais para pedir algo ao Rei de Macedônia. Epaminondas de Tebas vivia em circunstâncias miserá­veis, mas o seu biógrafo nos conta que ele não quis aceitar nada do Esta­do, a não ser honra. Paulo, o apóstolo, era zeloso acerca da sua honra. "Eu, porém, não me tenho servido de nenhuma destas coisas, (roupa e alimento das mãos de outrem). . . porque melhor me fora morrer antes que alguém me anule esta glória" (1 Co 9:15). Ele trabalhou dia e noite (1 Ts 2:9; At 18:3; 20:33ss.) para ser capaz de dizer: "Sou livre de todos" (1 Co 9:19). E Jesus? Ele viveu do que Lhe era dado (Jo 12:6), talvez não como mendigo, mas como um que recebe esmolas.
Claro que sei que Paulo certa vez aceitou uma oferta. Foi a igreja de Filipos que teve permissão de fazê-la. Mas como ele manifestou orgu­lho ao recebê-la! "E sabeis também vós, ó filipenses, que no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comi­go, no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros" (Fp 4:15). A congregação em Filipos devia entender que um favor lhe fora prestado. Mas Jesus tinha muitos benfeitores. Judas "carregava o que era dado" - isto não dá a idéia de que eles faziam discriminação quanto à origem das ofertas. Lucas fala expressamente acerca de "muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens" (Lc 8:3). Em Sua humil­dade, Jesus aceitava de todas elas, não compartilhando da jactância do Seu apóstolo: "Sou livre de todos."
"Ele dá mais livremente do que recebe, fazendo desta forma seu de­vedor o doador do presente." Elias agiu de acordo com a máxima de Aristóteles, em relação à viúva de Zarefate. O seu milagre recompen­sou ricamente aquela mulher pela comida e bebida que ela lhe havia da­do, transformando-o rapidamente de devedor em benfeitor (1 Re 17: I4s.). Jesus sempre rejeitou a idéia de demonstrar a Sua superioridade, fazendo uso dos Seus poderes miraculosos, e em toda a Sua vida Ele aceitou humildemente o que Lhe foi dado.
Porém, o que falamos já é suficiente, acerca dAquele que disse acer­ca de Si mesmo: "Sou manso e humilde de coração" — e por isto não combinou com o retrato ideal que os Seus contemporâneos haviam cria­do do homem sábio, de mente privilegiada. A Sua insensatez era-lhes aparente ainda em outra forma: em Sua paciência e gentileza.
Os profetas do Senhor haviam vindo ao seu povo com uma mensagem simples. Eles a pregavam, e ao mesmo tempo previam o castigo que se seguiriam se a mensagem fosse rejeitada. Jesus procurou as pessoas com uma paciência que era simplesmente incompreensível tanto para judeus como para gentios; sem orgulho, condescendência ou mau humor. Que diferença entre Geazi e Judas, ambos ladrões! Geazi roubou em uma úni­ca ocasião — se aquilo pode ser chamado de roubo, pois ele meramente aceitou um presente sem o conhecimento de seu senhor — e como casti­go ele foi ferido de lepra. Judas roubava continuamente — e era um tipo de roubo particularmente feio, da bolsa comum do pequeno grupo de homens — mas Jesus pacientemente conservou-o ao Seu lado (Jo 12:6; 2 Re 5:25ss.).
Os contemporâneos de Jesus ficaram ainda mais aborrecidos quando, em face de insultos, a Sua paciência transformou-se em suavidade. Tan­to para judeus como para gentios, havia somente duas maneiras pelas quais um insulto podia ser enfrentado com dignidade; ele podia ser de­volvido ou, se isso fosse impossível, podia ser orgulhosamente ignorado. Em ambos os casos o sentimento de superioridade se conservava, e não havia uma terceira saída. A lei de Moisés tornava compulsório o paga­mento exato do mal ou prejuízo infringido (Gn 21:23; Dt 17:21), e os profetas agiram de maneira semelhante (Jr 11:18, 21ss.; 20:2, 6; 28:10,16s.). Sócrates dizia ser uma qualificação viril vencer os amigos fazendo o bem, e os inimigos ferindo-os. Aristóteles declara que "só quem te­nha natureza de escravo suporta insultos ou os negligencia em seus compa­nheiros," E Esopo e Platão não contradizem este ponto de vista, quan­do dizem: "É melhor sofrer prejuízo do que causá-lo." Porque não é errado, mas é um privilégio sagrado devolver insultos. E que fazer se não for possível exercitar esse privilégio? Então os insultos devem ser sabiamente ignorados. Não foram os estóicos os primeiros a descobri­rem este tipo de sabedoria, pois, a respeito do mesmo assunto, Aristó­teles já havia dito: "O homem de mente elevada desdenha insultos, espe­cialmente os de homens de baixa estirpe." Jesus, todavia, não empregou nenhum destes métodos ao relacionar-Se com os Seus perseguidores. A Sua mão não realizou nenhum milagre de vingança, os Seus lábios não ordenaram nenhum castigo para subjugar os Seus oponentes; e também, Ele não ignorou orgulhosamente os insultos, mas condescendeu em res­ponder até a um servo que Lhe havia ferido (Jo 18:23). Que insensatez do Filho do homem! Nem a este respeito Ele Se enquadrou nas idéias da Sua época, quanto ao significado da verdadeira grandeza.
Podemos aproveitar esta oportunidade para dizer uma palavra acerca do silêncio de Jesus (Mt 26:63; 27:12-14; Lc 23:9). Outros homens tam­bém, reconhecidos como grandes e sábios, têm se apresentado diante dos juízes, mas souberam como se conter e fazer com que a sua superio­ridade fosse sentida até pelos que os acusavam. Pense em Sócrates; du­rante o discurso que ele fez em sua própria defesa, os seus acusadores finalmente ficaram ali, sentados, como se fossem a parte culpada. Epaminondas, acusado em uma questão de vida e morte, tinha apenas um pedido a fazer: que eles esculpissem em seu túmulo: "Epaminondas foi sentenciado à morte pelos tebanos, porque forçou os lacedemonianos à vitória em Leuktra. . . e porque não desistiu da batalha enquan­to não cercou a cidade." Como essas palavras irritaram o povo! Como fez subir o rubor da vergonha às faces dos juízes! Ou então, leia as pa­lavras que os sete irmãos, nos dias dos macabeus, lançaram à face de Antíoco, o tirano, enquanto morriam (2 Mac. 7:14, 17, 19, 31, 34-37). Je­sus conservou-Se calado — diante do Sumo Sacerdote, diante de Pila­tos, diante de Herodes — sempre houve o mesmo silêncio. Parecia que a Sua mente estava tão confusa que Ele não soube como defender-se; e um homem culpado também fica em silêncio. Verdadeiramente, o homem natural não pode encontrar o caminho da Sua glorificação em Seu silêncio. Se tão somente o orgulho do desdém se tivesse irradiado desse silêncio! Contudo, encontramos aí algum resquício dele? Jesus quebrou o Seu silêncio várias vezes, diante de Pilatos, e dirigindo-se ao servo. E o resultado foi que o mundo manteve a sua opinião: aqui não temos nenhum sábio, nenhum nobre, nenhum homem de tirocínio se­gundo a carne.
A gentileza de Jesus para com os Seus oponentes foi ultrapassada por outra característica que pareceu ao mundo ainda mais néscia. Foi o Seu amor para os Seus inimigos.2
Como já mencionamos, Sócrates assevera que é virtude viril vencer os amigos por fazer o bem, e os inimigos ferindo-os. Em pleno acor­do com este preceito, os antigos se apegavam à idéia de vingança, "Não é doce o desdém que zomba do inimigo?" pergunta Atena a Sófocles. O homem que não procurasse vingar-se se tornava desprezível. A vingança fazia parte da justiça. Na época de Jesus, quase se pode dizer que Israel vivia alimentado pela vingança. No livro de Wallace, Ben Hur, Simonides diz: "Vingança é o direito dos judeus, é a lei," e Ben Hur replica: "Um camelo, até mesmo um cão, lembra o mal que lhe foi feito." E aqui esse romance captou o espírito da época. Tanto entre ju­deus quanto entre gentios, porém, esta sede de vingança admitia que o inimigo fosse poupado, se estivesse em aflição. "Odiei quando foi nobre odiar," diz Sófocles, e em seguida: "Compadeço-me até do meu inimigo, quando ele está em aflição." Aristóteles dá expressão à opi­nião generalizada, quando diz: "É indigno de um homem culto tor­nar-se forte às custas dos fracos." A história sagrada oferece, no Antigo Testamento, exemplos suficientes dessa mentalidade elevada para com o inimigo que estivesse em condições de inferioridade (2 Re 6:22; 2 Cr 28:15; 1 Sm 24:6; 2 Sm 4:11; Pv 25:21; Ex 23:4s.). Porém, em ou­tros casos, pouco se sabia acerca de amor para com o inimigo; a retalia­ção era o ideal.
Todavia, no curso do tempo, a experiência ensinou que nem sempre era possível retaliar, revidar, e entre os estóicos encontramos muitas vezes uma fria resignação ou renúncia neste aspecto, bem como em ou­tros. "Isso não me atinge." "O único inimigo do homem é aquele que o atinge," reflete Epíteto, "mas se renunciares às propriedades visíveis, nenhum homem poderá injuriar-te, não poderás ter inimigos." Da mes­ma forma Diógenes já afirmara: "Aquele que necessita de libertação pre­cisa procurar um amigo verdadeiro, ou um inimigo mortal." Plutarco escreveu um ensaio a respeito da arte de fazer uso do inimigo. Por meio desses ardis, o inimigo se tornava inexistente, e a inimizade se tornava coisa sem importância. Mas essa indiferença certamente não era amor.
Também em Israel, o revide nem sempre podia ser usado. Mas o ho­mem religioso havia encontrado outra maneira de provar a sua superio­ridade sobre o seu inimigo. Onde a sua própria mão era impotente, ele deixava a vingança por conta de Deus (Dt 32:35; Jz 16:28). Depois de tudo, um pedido de vingança podia ser feito a Deus (Rm 12:19; Ecle­siástico 28:1). Precisamos pensar tão somente nos Salmos imprecatórios para nos lembrarmos das erupções dos sentimentos mais intensos, que expressavam a sede de vingança que bem conhecemos (Sl 94:1; 28: 4: 58:7ss.; 69:23ss.; 109:6ss.). Mas os livros dos profetas também es­tão cheios de orações para que Deus vingue o Seu povo (Jr 11:20; 15: 15; 18:23; 20:12, etc). Tome apenas um destes exemplos; como o ca­pítulo 17 de Jeremias: "Sejam envergonhados os que me perseguem, e não seja eu envergonhado; assombrem-se eles, e não me assombre eu; traze sobre eles o dia do mal, e destrói-os com dobrada destruição" (v. 18). E então, contraste esta passagem com João 17 — a cena diante do Sumo Sacerdote. Ou, um contraste ainda mais agudo: compare o gri­to de vingança emitido pelos santos do Antigo Testamento (cf. 2 Sm 22: 48; Ne 6:14; Eclesiástico 25:10, para não falar do livro de Ester, que está cheio da idéia de vingança) com a oração de Jesus na hora da Sua morte. Que insensatez do Filho do homem! Mesmo aqui, aos olhos do mundo, Ele contradisse o ideal que o coração humano havia estabeleci­do como de verdadeira grandeza e de superioridade sobre o inimigo.
Jesus Se coloca como insensato em Seu relacionamento com os filhos dos homens. Desejamos encerrar esta parte de nosso estudo com uma palavra acerca da forma pela qual Jesus serviu os homens. Quanto a este aspecto também, no mundo antigo, houve duas maneiras pelas quais o homem de pensamentos elevados podia relacionar-se com seus seme­lhantes. Ele podia zombar deles e desdenhá-los, evitando-os, distante e auto-suficiente, como se para ele o mundo não existisse; ou podia habi­tar entre eles, mas como alguém que dominava sobre eles para o bem deles.
Os sete sábios da Grécia, com exceção de Tales, eram todos autori­dades do Estado. Uma das frases atribuídas a Sócrates, embora sem provas, diz: "O filósofo (o homem de discernimento) precisa também ser governante." Platão diz: "Se os filósofos não são também os go­vernantes, e se o poder do Estado e a filosofia não caminham de mãos dadas, infindável é o sofrimento do Estado e da humanidade." Atra­vés da boca de Telêmaco, Homero canta bisonhamente: "Eu aceitaria alegremente o poder de reinar, se Zeus mo enviasse! Ou você pensa que esta é a pior coisa que pode acontecer? Verdadeiramente, não é nada mau governar."
Os judeus pensavam de maneira idêntica. Os fariseus e os Saduceus, os "homens de discernimento" em Israel, ocupavam o governo como fato natural. Esse era o lugar adequado para homens de cultura. Além disso, o bem estar do povo parecia exigi-lo, pois só assim os cidadãos podiam ser compelidos, pela força se necessário, a fazer o que era bom para eles. Neemias, em sua época, seguiu a mesma linha (Ne 13:7ss.). Matatias e seus amigos compreenderam a sabedoria dessa atitude (1 Mac. 2:44-48). E agora vinha Jesus, cujos serviços para os outros não tinha perspectivas de lucro: "o Filho do homem veio não para ser servido, mas para servir" (Mt 20:28). Uma vez, por ocasião da purificação do Templo, Ele empregou a força, como Neemias havia feito (Jo 2:15); isto teve seu efeito, estando de acordo com o espírito dos grandes (v. 18). Mas Ele jamais repetiu esse feito: nunca mais empregou a força em Sua maneira de tratar os homens, mas enveredou pela trilha de serviço que não levava a parte alguma — que insensatez do Filho do homem! Como podia Ele esperar, seguindo essa trilha, e durante a duração de uma vi­da, alcançar grandeza no sentido mundano?

***

No entanto, há uma segunda maneira pela qual Jesus violou o ideal entesourado nos corações de Seus contemporâneos; um segundo ponto em que Ele exibiu uma falta de majestade, de grandeza, de elevação de alma — em suma, uma falta de tudo o que se esperava de um sábio. Para o mundo da época, Jesus parecia um louco, pelo fato de submeter-se ao destino que Lhe coube.
Na época de que estamos falando, a razão via duas maneiras pelas quais o espírito do homem podia alcançar domínio sobre o mundo ex­terior: mais uma vez, esse mundo exterior podia ser dominado ou igno­rado. A princípio, com a impetuosidade da juventude, a filosofia gre­ga tentou o primeiro destes caminhos. Mas quando isso levou ao de­sengano, os estóicos tomaram emprestada a sabedoria de Diógenes co­mo sua máxima: o desdém para com o mundo exterior devia ajudar a mente a assumir uma posição de dignidade, elevando-a acima de tudo o que inquietava as sensibilidades ou emoções. Epíteto compara a vida a um banquete, e descreve o seu objetivo: "Se não tomas nada do que te é oferecido, mas o encaras com indiferença, serás não apenas um con­viva, mas um governante na companhia dos deuses. Desta maneira Dió­genes, Heráclito e outros semelhantes a eles, ganharam o epíteto divino que lhes foi atribuído." E a fim de que a sua pregação não contradis­sesse os seus atos, esse escravo antigo, cujo livro-texto compara-se aos melhores quanto ao seu ensino moral, dentre todos os livros da antiguidade, passou a viver na mais abjeta pobreza, mesmo depois de libertado; as suas únicas propriedades eram um banco, um travesseiro e uma lâm­pada.
Entre os judeus também encontramos as mesmas duas formas pelas quais o espírito humano tentou estabelecer a sua superioridade sobre o mundo exterior. Davi e Salomão eram personagens brilhantes, tri­pudiando sobre nações; o esperado Filho de Davi devia exceder os Seus ancestrais a este respeito. Havia também as figuras selvagens, estranhas, vestidas de pelos de camelo e com um cinto de couro - mesmo antes dos dias do tisbita — cuja majestade consistia em escarnecer de tudo o que fosse terreno. Mas, o que dizer de Jesus? Onde O colocamos? A sua atitude faz lembrar muito a ampla mediocridade que não tinha mui­to de si mesma, mas que recebia tudo o que lhe era oferecido. Ele acei­tou um convite para um casamento (Jo 2); desfrutou de todos os pra­zeres inocentes (Lc 15:23, 25b — no meio de uma parábola muito sé­ria); Ele irritou os fariseus, tomando lugar à mesa do rico (Lc 5:29; 19:2,5); Ele não rejeitou o presente precioso, quase extravagante, da unção com perfume (Jo 12:5); Ele vestiu alegremente uma capa cara (Jo 19:23); Ele nunca foi uma prova contra pedidos insistentes; contu­do, nunca desempenhou o papel de herói, no sentido em que o mun­do o entendia. Ele manifestou cansaço, sentou-se (Jo 6:6); se tinha fome, Ele fazia o máximo para satisfazê-la, mesmo quando estava em via­gem (Mt 21:18s.); quando teve sede, Ele pediu algo para matar a sua sede. Certa vez Alexandre derramou no solo magnanimamente um elmo cheio de água, quando a sua língua estava apegando-se ao céu da bo­ca. Este Jesus por duas vezes pediu água, em circunstâncias em que o homem nobre, de sentimentos elevados, teria preferido morrer de se­de; Ele pediu-a de uma mulher samaritana, e dos Seus carrascos.
Já falamos da posição dominante que os sábios da antiguidade de­viam assumir, em desfrutar ou fazer uso do mundo exterior. Mas espe­rava-se que Ele, também, mostrasse como dominava este mundo, pela maneira como Se recusasse a permitir que o Seu coração fosse profun­damente comovido pelas circunstâncias exteriores.
Cinco dias antes do Seu triunfo, Lucius Emilius Paulus, vencedor de Perseu, Rei de Macedônia, perdeu o seu filho mais jovem; e cinco dias depois da vitória, o seu filho mais velho morreu. No discurso ao po­vo, segundo o costume, aquele homem desolado disse: "Eu orei para que, se o infortúnio devia vir, que os deuses me visitassem a mim, e não ao meu país. A minha oração foi respondida. A minha tristeza teria sido ainda mais profunda se os deuses tivessem ferido a vocês." Isto pode parecer como bombástico ou como auto-promoção, porém verifi­ca-se que era o que se esperava obviamente de qualquer homem que quisesse ser considerado "grande" naquela época. "Quando encontrares alguém lamentando-se," diz Epíteto, "não deixes de consolar a sua tristeza com palavras de razão, mesmo que precises chorar com ele. Mas impeça que o íntimo do seu coração seja atingido." "Ele gemeu no espírito" — é desta forma que o Evangelho (numa tradução literal) expressa a profunda emoção que apoderou-se de Jesus, diante do túmu­lo de Lázaro, forçando-o a derramar lágrimas (Jo 11:33). E Ele cho­rou também sobre Jerusalém (Lc 19:41), contrariando o conselho dado por Epíteto aos sábios: "O caminho da liberdade encontra-se em igno­rar as coisas que não conseguimos controlar." Horácio diz que o me­lhor, quiçá o único meio de se alcançar a paz da mente, é não admirar nada e não se agitar por nada. Jesus ficou tão profundamente como­vido com a morte de João, que partiu para o deserto, para ali recupe­rar a paz mental. (Mt 14:13). Em todos estes casos Ele Se demonstrou muito agitado pelo curso dos eventos, para ser considerado grande ou sábio segundo o juízo da Sua época.
Focalizemos agora uma questão muito importante: a da coragem de Jesus. Coragem (valor) é uma das quatro virtudes cardeais expostas por Platão. Quando medido segundo os padrões dos Seus contemporâ­neos, Jesus pareceu até certo ponto — embora não totalmente — desprovido de coragem. Podemos estudar mais detidamente, em primei­ro lugar a Sua coragem na vida, e depois a Sua coragem na morte.
Os homens de maior resistência conhecidos pelos gregos eram os ho­mens de coragem. Odisseus perdeu muita coisa — quase tudo — mas conservou a sua coragem, o seu ânimo. "Mesmo que os deuses me persigam pelos mares mais tenebrosos, eu o suportarei; meu coração se acos­tumou ao sofrimento." Aristóteles admite que o homem de sentimen­tos nobres não "se lança ao perigo por coisas pequenas" — ele também é consciente do seu próprio valor — contudo, acrescenta: "Mas por amor às coisas grandes, ele enfrenta perigos galhardamente, considerando a sua vida como nada, como se não valesse a pena viver." Um homem de­ve ter vergonha de ter medo. Mas quando à confiança em Deus experi­mentada pelos piedosos se acrescenta o valor humano, são forjados ho­mens para quem o medo é um sentimento desconhecido. Neste senti­do Paulo foi um homem destemido. Ele ergueu um monumento à sua coragem no capítulo 11 da sua Segunda Epístola aos Coríntios (vv. 24-27) - não por vaidade, mas em sua defesa própria. Em Jesus, pelo contrá­rio, parecemos nos encontrar com cuidados que de forma alguma combi­nam com a varonilidade. Ele preferiu permanecer na Galiléia; fugiu para o deserto; chegou a recorrer ao território gentílico, constrangido em todos os casos pela Sua prudência (Mt 4:12; 12:15; Mc 11:19; Lc 21:37; Jo 7:1; 11:54). Chegamos a nos defrontar com a desagradável palavra "secretamente (Jo 7:10) e, o que é igualmente mau, "Jesus Se ocultou deles" (Jo 8:59; 12:36). Mais tarde, o Seu apóstolo protestou quando ia ser julgado secretamente, provavelmente sentindo que tal "sigilo" era aviltante (At 16:37). Para Neemias parecia pecado escon­der-se (Ne 6:11,13). Aristóteles declara abertamente que "o sigilo é conhecido apenas dos medrosos." Não obstante, Jesus o praticou volun­tariamente. Os Seus contemporâneos podem ter deplorado a falta de majestade e de grandeza nesta maneira de agir. Parecia que Lhe faltava coragem.3 Foi mais evidente a Sua coragem, quando chegou a hora da Sua morte?
Encontramos no mundo pagão exemplos esplêndidos de coragem em face da morte. As palavras de Sófocles podem servir como lema a este respeito: "Viver e morrer gloriosamente, estes são os deveres do homem nobre."
Pense nos guerreiros — em um Epaminondas, que em grande agonia, deixou o aço ficar na sua chaga, até receber notícias da vitória, quan­do ele o arrancou, com um grito de triunfo em seus lábios abatidos: "Já vivi o suficiente, pois morro invicto!". Em um Leônidas com os seus trezentos companheiros, que se ungiram e se adornaram quando perceberam que a morte lhes seria penosa; em um Agague, que apro­ximou-se de Samuel a passos largos, para receber o golpe de misericórdia, com os olhos fulgurantes e estas bravas palavras em seus lábios: "Certa­mente a amargura da morte já passou" (1 Sm 15:32). Deixando de la­do os guerreiros, pensemos nos heróis da fé na antigüidade. Aqui pode­mos citar Sansão, derrubando as colunas do templo filisteu sobre a sua própria cabeça (Jz 16:29). Impavidum ferient ruinae: que as ruínas cubram um homem impávido. E também há os heróis da época dos macabeus. Quantas pessoas morreram alegremente naqueles dias (2 Mac. 6:27; 7:12, 30, 40)! Tanto o mundo judaico como o pagão manifesta­ram coragem ao morrer. No entanto, havia uma diferença entre eles: uma intensidade ligeiramente maior em um deles. O que Bulwer-Lytton diz em Os Últimos Dias de Pompéia, na excelente descrição que faz de um pagão e de um cristão, pode ser citada aqui, com pequenas altera­ções: "O pagão não recua; mas o judeu grita de alegria." Este último via a perspectiva de coisas melhores (2 Mac. 7:36).
E como foi que Cristo Se defrontou com a morte? No Getsêmane, a luta foi prolongada durante três atos; no entanto, no fim do segundo, e outra vez no término do terceiro, Ele alcançou somente resignação. Será que Sócrates, o estóico moribundo, não se saiu melhor do que is­so? Vemos nele o medo da morte que é visível não apenas no Getsêmane, mas em palavras como as citadas por Lucas: "Tenho um batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mes­mo se realize (Mt 26:37s.; Lc 12:50)? O relacionamento de Jesus com os discípulos foi o de um amigo que precisava de amigos: "Ficai aqui e vigiai comigo" (Mt 26:38). Aristóteles expressou a opinião da sua época, quando escreveu: "Para ter a mente elevada o homem não po­de ter necessidade de ninguém, ou tê-la dificilmente." Na hora da mor­te, Sócrates foi tão grande que embora os seus discípulos estivessem precisando dele, ele não precisava deles. Jesus, em Suas últimas horas, sucumbiu completamente; Ele tropeçou sob o peso da cruz; Ele pediu água; e então ouviu-se o grito de angústia do fundo da Sua alma: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Isso assemelha-se à cora­gem em face da morte? Estaria o discípulo acima do seu Senhor quan­do, em circunstâncias similares, a face de Estêvão resplandeceu como a face de um anjo (At 6:15)?
A luz desta questão se torna ainda mais desfavorável quando conside­ramos o que significou essa morte tão elogiada — a redenção do mundo. "É doce morrer pela pátria" - os filhos mais nobres do mundo antigo expressaram estas palavras com atos, num espírito alegre. Para citar apenas um exemplo: quando Leônidas ficou sabendo através do oráculo que "ou cai a cidade, ou o rei morre," continuou com olhos fulgu­rantes, a fim de oferecer-se como sacrifício. Mas Jesus devia morrer pe­la humanidade — isso não devia ser ainda mais doce? No entanto, Ele manifestou tamanha debilidade de coração! Até nas reflexões de João, que mais se aproximam desse espírito de alegria (Jo 12:24; 14:27-30; 15:13-16), evidencia-se alguma apreensão e hesitação (Jo 12:27). De­via esse Homem ser considerado sábio, nobre, e de sentimentos eleva­dos por Seus contemporâneos? Não. Ele lhes parecia ser um tolo em Sua submissão ao destino que Lhe sobreviera.
E agora, no fim deste capítulo acerca da insensatez do Filho do ho­mem, consideremos ainda mais um ponto: a conduta de Jesus para com a Sua mãe. Como Ele pisou deliberadamente sobre os laços que unem os filhos aos pais, irmãos com irmãos! Não fora o próprio Deus que for­mara esses laços humanos naturais? E ali estava Jesus, asseverando que Ele viera para desfazê-los! O severo tisbita, certa vez permitira volun­tariamente que Eliseu, o escolhido, voltasse ao lar pelo última vez para abraçar seu pai e sua mãe, ao despedir-se (1 Re 19:20). Mas este Jesus não permitiu nem que um filho voltasse ao lar para sepultar o seu pai (Lc 9:59; Tobias 4:3). A que extremos não iria o povo daquela época, para lançar uma porção de terra sobre o cadáver de um ente querido? A fama de Agostinho, nestas circunstâncias, não é imarcescível? (cf. Tobias 2:3,9). Sob que prisma a revolução desta forma introduzida por Jesus no pensamento religioso e moral da época colocou este Nazare­no, aos olhos dos Seus contemporâneos, entre os nobres da época? Em resposta às súplicas de sua mãe, Coriolano voltou atrás quando havia chegado até às próprias muralhas de Roma. Entre os judeus sempre se considerara as grandes promessas que esperavam por aqueles que hon­rassem a seus pais (Ex 20:12; Ef 6:2). Em certa ocasião a mãe de Jesus também pensou que iria exercer o seu direito de maternidade sobre Je­sus, durante a festa de casamento em Caná. Todavia, em termos claros, o seu Filho recusou-se a reconhecer-lhe qualquer autoridade nesse sen­tido (Jo 2:4). Um segundo encontro com Sua mãe nos parece ainda mais drástico. Ele estava em Cafarnaum, pregando em uma casa. Ela estava lá fora, — provavelmente depois de uma viagem, vinda de Naza­ré — e, desejando falar-Lhe, mandou-Lhe um recado. E o que foi que Jesus fez? Respondeu ao mensageiro: "Quem é minha mãe?" E en­tão, estendendo o braço em direção aos discípulos, disse: "Eis minha mãe!" (Mt 12:46ss.). Talvez mais tarde Ele tenha ido para vê-la. Po­rém, mesmo que Ele tivesse ido imediatamente, que prelúdio difícil ha­viam sido estas palavras, de um encontro com a mulher que Lhe havia dado à luz!
Jesus apareceu a inúmeras pessoas depois da Sua ressurreição, sendo a primeira delas uma mulher que estava necessitando de consolo. Mas nada nos é revelado de qualquer aparecimento para Sua mãe, que pre­cisava de consolo mais de que qualquer outra pessoa. Essa conduta por­ventura teria parecido nobre aos humanos olhos dos Seus contempo­râneos?

***

Neste capítulo obrigamo-nos a provar que, pelo menos a alguns res­peitos, a aparência que temos de Jesus não foi inventada por um grupo de judeus agradecidos e gentios extasiados, que Lhe atribuíssem entusiasticamente tudo o que eles sabiam ser nobre, grande e sábio, humana­mente falando. Creio que ficou claro que o retrato de Jesus não contém nada da sabedoria da Sua época. Todavia, talvez seja possível provar que houve um pequeno círculo de pessoas, uma espécie de seita que se estava formando naqueles dias, que cultivava uma estranha preciosidade: uma espécie de perversão de sentimentos? Que diríamos se Jesus fosse
O fruto maduro de um jardim de emoções humanas assim peculiar? Que diríamos se as qualidades consideradas admiráveis por esse círculo singu­lar Lhe tivessem sido atribuídas, e sob as mãos amorosas e adornadoras desse pequeno grupo de pessoas, Ele tivesse crescido, até tomar a for­ma que agora temos? Uma figura assim não acabaria sendo obra das mãos dos homens?
Tentemos, no capítulo seguinte, encontrar uma resposta para estas perguntas.
(Veja, no Apêndice, na p. 000, um estudo de "Duas Paixões:" a mor­te de Sócrates e a morte de Jesus.)
1 Se assim não fosse, não haveria sentido em considerar este círculo de pensamen­to como lugar do nascimento do retrato de Cristo que nos é apresentado. Pois todas as pessoas que já estudaram o assunto reconheceram que esse retrato nun­ca foi traçado por mãos pagãs.
2 As pessoas falam muitas vezes como se o amor pelo inimigo devesse ser encontra­do no Antigo Testamento, citando para confirmar essa idéia Levítico 19:18 (Ex. 23:4,5; Pv 24:17). Mas nestas passagens "próximo" certamente significa somente os outros membros da tribo; e a opinião de Jesus, até mesmo deste amor natural para com os judeus, era baixa, pois Ele declarou que, do ponto de vista moral, ele (o amor) era sem valor (Mt 5:47). Além disso, o Antigo Testamen­to mostra de maneira suficientemente clara que até esse amor pelo inimigo que pertencesse à mesma raça era assunto duvidoso entre os judeus (cf. Sl 28:3,4, com a expressão "próximo", e nossas observações ulteriores a respeito do as­sunto). Mas no que concernia ao estrangeiro, a adição tradicional: "Odiarás o teu inimigo" (Mt 5:43, uma ordem, e não apenas uma permissão dada), expres­sava plenamente o espírito do Antigo Testamento (cf. Dt 15:3;23:20s.).
3 "A coragem é a mais disseminada de todas as virtudes humanas." Chamberlain, Foundations. Os oponentes primitivos do Cristianismo, um Celso ou um Juliano, apontavam zombeteiramente para Jesus, que tremeu e vacilou em face da morte.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Conselhos de um "Pregador Intinerante"


Posted: 19 Jan 2012 12:00 PM PST
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Por Augustus Nicodemus Lopes

[carta dirigida a personagem fictícia, porém baseada em experiências e fatos bem reais]

Meu caro Pr. Filipe,

Obrigado por seu e-mail contando as experiências recentes em suas pregações Brasil afora. Eu mesmo tenho tido a oportunidade, durante meu ministério, de pregar praticamente em todos os Estados da Federação e em vários países do exterior. Só posso agradecer a Deus.

Acho que é por isso que me sinto à vontade para atender seu pedido de conselhos práticos para suas viagens. Vou falar de coisinhas práticas que, mesmo sendo pequenas e “mundanas”, podem estragar sua estada em uma igreja.

1. Se for viajar de avião, acerte bem cedo quem vai comprar a passagem. Já me aconteceu de chegar o dia de viajar e não ter um bilhete. Os que me convidaram não compraram passagem pensando que eu ia comprar! Foi uma dificuldade conseguir passagem de última hora e estas geralmente são mais caras.

2. Se ficar a seu critério comprar a passagem, veja o horário em que a programação começa, para não chegar em cima da hora. Dê sempre um espaço para atrasos nos aeroportos. Peça um assento no corredor ou janela, não deixe para marcar na hora do embarque. Você pode terminar lá no fundo, espremido entre dois gordões durante duas horas de vôo. Um verdadeiro inferno.

3. No caso de você comprar a passagem, guarde o comprovante para mostrar quanto custou, na hora do reembolso. Não será um problema se você não tiver comprovante, mas fica mais elegante e transparente estar pronto para mostrá-lo.

4. Escreva em lugar acessível um telefone para contato, e mesmo o endereço da Igreja ou do local das pregações, para quando chegar ao aeroporto da cidade onde vai pregar não ser surpreendido por um aeroporto vazio, sem ninguém lhe esperando. Já passei por isso, sem telefone de contato e sem endereço, e lhe garanto, é desesperador!

5. A bagagem é extremamente importante, em caso de compromissos fora da sua cidade. Se for de ônibus, tudo bem. Se for de avião, esteja preparado para extravios. A melhor coisa é viajar leve e acomodar suas roupas, etc. em uma mala ou bolsa que você possa levar consigo dentro do avião, sem ter que despachar como bagagem. Se não tiver jeito, leve pelo menos uma muda de roupa com você. As chances de extravio de bagagem são grandes. Já me ocorreu de chegar em Goiânia para pregar num grande evento, e minha mala se extraviou. Tive que morrer num Shopping Center para comprar de última hora uma roupa completa e todos os acessórios (por causa do meu tamanho, sempre é difícil conseguir paletó emprestado...). A mala só apareceu dois dias depois.

6. Ainda sobre bagagem. O costume das igrejas varia muito pelo Brasil quanto à indumentária do pregador. Em alguns lugares, usar paletó é sagrado. Em outras, indiferente. Meu conselho é que pergunte antes ao pastor da Igreja que indumentária ele costuma usar. E caso isso não tenha sido possível, leve um paletó completo por via das dúvidas. Esteja preparado para tudo – rasgar as calças, descosturar o zíper da calça do único paletó (isso me ocorreu na encantadora Porto Velho. Minha sorte foi que havia uma irmã que era excelente costureira e deu um jeito a tempo para o culto da noite), manchar o único paletó que levou logo na primeira refeição, etc.

7. Por falar em hospedagem, naqueles compromissos de mais de um dia, meu conselho é que não imponha como condição ficar num hotel. Pega muito mal. Infelizmente, muitos pregadores evangélicos de renome quando aceitam um convite impõem como condição, além da oferta já determinada, ficar em hotéis de várias estrelas, comer em determinados locais, etc. etc. Para mim, é coisa de mercenário. Diga que aceita ficar hospedado na casa de uma família desde que você tenha tempo para descansar e rever seus sermões e orar. No meu caso, eu acrescento que não consigo dormir com mosquito (pernilongo, muriçoca, etc. – você tem que lembrar que dependendo do lugar para onde vai, o nome muda...) e calor, e se a família tiver pelo menos um bom ventilador e repelente, já basta. Deixe a Igreja que lhe convida decidir onde vai lhe hospedar. (Se você quiser ler um pouco sobre as bençãos de ser hospedado – e dos que hospedam pregadores – leia uma série de posts sobre o assunto, que começa aqui.

8. Como você é presbiteriano, fique atento para um detalhe que pode acabar trazendo algum embaraço, se você for convidado para pregar numa igreja batista. Isso nunca me aconteceu, mas sei de casos em que o pastor presbiteriano foi pregar numa igreja batista e na hora da Ceia do Senhor foi preterido – o diácono zeloso não lhe serviu o pão e o vinho (como eram batistas, provavelmente era suco de uva). Ouvi falar de pastores presbiterianos que passaram por esse vexame e sei de pelo menos um que se levantou e saiu do culto, na hora. Não precisava tanto, talvez. Mas, que fica chato, fica. Você é crente o suficiente para estar falando lá e até para ensinar a congregação como trilhar os caminhos de Deus, mas não para tomar ceia...Por isso, cuidadosamente, pergunte antes ao colega batista, ou de outra denominação que restrinja a Ceia, se haverá celebração da Ceia e se ele tem a posição restrita ou mais aberta, que concede a Ceia aos pobres presbiterianos. O que é acertado antes, não sai caro.

9. Outro conselho – procure informar-se ao máximo da Igreja onde vai pregar, ou dos que estão patrocinando o evento em que você vai falar. Em 1997 paguei um dos maiores micos do meu ministério quando fui convidado para falar sobre Batalha Espiritual em uma igreja presbiteriana fora de São Paulo (eu tinha acabado de lançar meu livro O Que você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual). Eles esperavam que eu falasse a favor e eu fui falar contra! Se eu tivesse tomado o cuidado de me informar cuidadosamente das posições do pastor da época e da situação da igreja, provavelmente teria recusado o convite ou então deixado muito claro que iria falar contra. Foram três dias de tensão e desconforto, na esperança de que Deus estivesse utilizando positivamente aquele constrangimento... Conhecer antecipadamente sua audiência vai ajudar a calibrar a pregação, determinar os conteúdos e tirar do baú do escriba coisas velhas e novas apropriadas para a ocasião (Mateus 13.52).

10. Nesse sentido, é bom estar absolutamente seguro da ocasião e do motivo do convite. O que a Igreja espera? É um aniversário da Igreja? Há um tema específico? Os temas das pregações ou palestras são livres? Eles esperam que você fale quantas vezes? Seja organizado, tenha tudo isso anotadinho bem antes do evento. Eu já passei por maus momentos por causa de desorganização. Cheguei na cidade onde tinha de pregar três vezes sem ter me assegurado da ocasião. Confesso que confiei demais na minha experiência e nos sermões de reserva que tenho de memória. A ocasião era o aniversário do coral da UPH!!! Eu não tinha sermão nenhum preparado para isso. Tive de improvisar na última hora e ficou aquela beleza...

11. Ainda alguns conselhos sobre as pregações. Pergunte antes o tempo que o pastor da igreja costuma pregar. Não abuse do fato que você é convidado. Você vai querer que eles se lembrem de você como “ah, aquele pastor que pregou tão bem sobre Lázaro...” e não como “ah, sim, aquele pastor que pregou cada sermão um mais comprido que o outro...”

12. Outro conselho muito importante. Pregadores itinerantes “como nós” costumam ter um pacote de sermões que levamos conosco e pregamos onde somos convidados. Pode acontecer o desastre de você repetir o mesmo sermão num mesmo lugar. Já passei por essa vergonha. Quem me salvou foi Solano Portela, que estava presente, e logo que eu anunciei o texto e fiz a introdução do sermão, ele discretamente se levantou do banco e me passou um bilhetinho onde estava escrito “você já pregou esse sermão aqui no mês passado”. Quase morri de vergonha. E o pior foi pregar na hora um sermão novo de improviso! Portanto, ache um jeito de registrar onde você pregou determinado sermão e quando, para evitar esse desastre.

13. Por incrível que pareça, o púlpito onde você vai pregar pode se tornar um problema. Há igrejas com púlpitos minúsculos e outras que nem púlpito têm mais – foram aposentados quando o pastor e a igreja adotaram grupo de coreografia, um enorme grupo de louvor e equipe de teatro. O pastor passou a pregar com microfone sem fio, andando pelo palco e pela igreja, sem anotações e sem a Bíblia diante dele, só contando histórias e experiências. Eu sei que você gosta de pregar expositivamente, de ter sua Bíblia aberta diante de você e as anotações ao lado. O que fazer em casos assim? Eu já me virei com aquele estande do regente do conjunto coral, onde de improviso acomodei a Bíblia e as notas. Em outras vezes, não teve jeito. Tive de pregar com a Bíblia aberta numa mão e o microfone sem fio na outra, sem chance de ter as anotações! Nesse caso, o que me salvou foi a boa memória a experiência de pregar de improviso. Meu conselho é que você também pergunte ao pastor se haverá ao menos um estande de regente para colocar Bíblia e notas. Outro conselho é que memorize os sermões e passe a pregar sem notas. Isso vai lhe salvar de inúmeras situações similares.

14. Agora, a questão da oferta. Na verdade, isso não deveria ser nem mesmo uma questão para você. No máximo é uma questão apropriada para quem convida. Quando isso passa ser o foco do seu ministério, vira coisa de mercenários, os que mercadejam a Palavra de Deus. Sei que existem muitos que não têm outras fontes de sustento a não ser o ministério itinerante, mas não é o seu caso e eu não saberia como lidar com essa situação... Já recebi vários convites que vinham com a pergunta receosa, “quanto o irmão cobra por palestra?” Obviamente, respondi que não cobro absolutamente nada, só preciso que paguem as despesas de passagem e hospedagem. Já houve casos em que acabei pagando para ir pregar em outro Estado, numa igrejinha que não tinha condições de pagar a passagem de avião. De ônibus, levaria 2 dias para ir e mais 2 dias para voltar (Deve ser por isso que minha agenda de pregações vive lotada...). Meu conselho é que não conte com ofertas, como se fosse coisa certa. Não são. São um extra, um bônus, que pode ter ou não. Se, todavia, a igreja ou entidade patrocinadora lhe oferecer uma oferta, aceite com alegria e gratidão. Se recusar, vai ofendê-los.

Bom, eu teria mais um monte de coisas para dizer sobre esse assunto. Afinal, após 30 anos como pregador itinerante, no Brasil e fora dele, a gente aprende muito. Mas, no geral, eu lhe diria que tem sido um grande privilégio e alegria pregar em tantos lugares diferentes. Os contratempos não representam nada diante das bênçãos. É claro que isso só tem sido possível pela compreensão e apoio da minha esposa (filha de missionários) e de nossos quatro filhos... recentemente fiquei muito alegre quando uma igreja mandou uma carta para minha esposa e filhos, agradecendo por terem me liberado para passar um fim de semana com eles.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Filhos do Diabo


Existe uma raça na terra que, aos olhos de Deus, compõem a  descendência espiritual de satanás. Eles o são por escolha própria e refletem a sutil destreza do pai em enganar e mentir. São os filhos do diabo. Embora fisicamente semelhantes aos filhos de Deus, trazem em seu interior toda a malícia com que satanás ardilosamente subverteu a Palavra de Deus desde o jardim do Éden. Os filhos do diabo são mestres em torcer as Escrituras Sagradas, sempre produzindo morte espiritual. O diabo é o pai da mentira e seus filhos se esforçam por fazer da mentira a verdade para toda a humanidade.
Jesus os identificou em João 8:44: Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira. - João 8:44A Igreja de Jesus, que tem por obrigação anunciar a Verdade do Evangelho, tem fracassado muito em sua missão, tanto que o mundo está totalmente em trevas e moldado à imagem e ao gosto de satanás. Os filhos do diabo se contrastam com os filhos de Deus assim como a pedra comum se contrapõe ao brilhante. Um é lapidado em entendimento, sabedoria e caráter, enquanto o outro segue a natureza, opaco e sem brilho. Um reflete a luz com maestria e beleza... O outro permanecerá sempre sem brilho, ou seja, sem capacidade de refletir a luz. Os filhos do diabo jamais conseguem estampar em si mesmos a Luz da Palavra de Deus!
O mundo dos filhos do diabo
O mundo idealizado por satanás é oposto aos planos divinos, desde que ele intentou superar o próprio Criador. Suas idéias diferenciadas fizeram desse anjo caído o principal opositor de Deus e da raça humana. Quando descobriu que, da raça humana Deus faria "filhos" à sua imagem e semelhança, o diabo passou a ser o inimigo número um da humanidade. Por quê? Porque a nós, Igreja de Jesus, foi dada a promessa de sentar no trono do Pai, o Criador. Como esse era o sonho de satanás, que, por ser o maioral nos céus, se julgava o herdeiro direto do trono, os planos divinos de moldar filhos através da raça humana colocou a própria raça humana como obstáculo aos planos de Lúcifer. Isso despertou em satanás os piores sentimentos de inveja e ódio. Por isso, desde o princípio, satanás trabalha não para mostrar a verdade do Evangelho aos seres humanos, mas para desvirtuá-lo, para todos percam o direito de serem chamados "filhos de Deus". E o pior é que, para Deus, todos quantos não forem feitos filhos de Deus, automaticamente serão filhos do diabo. Explico: a palavra diabo quer dizer opositor de Deus; e todos quantos não receberem o Evangelho, que é a forma pela qual Deus estabeleceu quais pessoas ele considerará por filhos, serão considerados opositores de Deus, opositores do Evangelho, opositores da Salvação, agindo como satanás agiu, pelo que serão considerados filhos do diabo. Por isso, o diabo se esforça com seus demônios, por moldar o mundo através do pecado e não através do Evangelho. Ele bem sabe que, moldando o mundo à imagem do pecado fará com que todos percam o direito ao paraíso celestial. Ele já perdeu seu direito de "filho de Deus" e agora trabalha para que você perca o seu direito também e seja aliado dele na luta contra Jesus Cristo. Contudo, nessa luta entre a Luz e as trevas, o vencedor será Jesus Cristo: Ele destruirá por completo toda a descedência espiritual do diabo, contra ele reunidos em batalha, no dia da vingança profetizado por Isaías, no capítulo 63:4. Esse mundo, moldado por satanás, será desfeito por completo nessa última batalha. Os vencidos serão todos lançados no lago de fogo e, os vencedores, herdarão as promessas do Evangelho.

Perdendo o paraíso terrestre
No jardim do Éden, a serpente, usada por satanás, torceu o conselho divino ao casal Adão e Eva. Eva recebeu a opinião de satanás como uma verdade e a abraçou confiando que Deus lhes teria mentido. E assim desobedeceu o único mandamento que Deus dera ao casal. Eva havia rejeitado a palavra de Deus e confiado no conselho de satanás, dado através de uma sessão mediúnica na qual falou através da serpente. As consequências foram trágicas para toda a humanidade; o casal primitivo perdeu seu lugar no Jardim do Éden, a mulher ganhou dores no parto e perdeu sua igualdade diante de Deus. Afinal, ela havia sido o pivô do pecado que lançou a humanidade para fora do paraíso. Os filhos de Adão e Eva jamais conheceram o paraíso. Todos nós perdemos o direito ao paraíso terrestre. Todos quantos insistem em rejeitar os conselhos divinos contidos na Bíblia Sagrada perderão, igualmente, o direito a todas as suas promessas de Salvação e Vida Eterna.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

AS CARACTERÍSTICAS DE PEDRA DE TROPEÇO NO MESSIAS


 "Escândalo para os judeus"                                                                                    1 Coríntios 1:23
Quando o Salvador veio viver entre o Seu povo, ele não era inespera­do. Pelo contrário, nenhum povo, antes ou depois, alimentou tantas esperanças acerca do advento de qualquer outro homem. Toda uma li­teratura — a chamada Apocalíptica Judaica — foi formada, com o ob­jetivo de pensar no futuro do mundo, e os dias do Messias eram como as dobradiças da porta, firmados no que o todo se movia. E esta litera­tura não foi um movimento sem influência, como se permanecesse alheia aos pensamentos e ações do povo; também não foi as reflexões de um círculo pequeno e talvez especialmente piedoso. As erupções constan­tes de rebelião ocorridas naquela época, tanto quanto os próprios Evan­gelhos, são uma prova suficiente de como a idéia messiânica estava viva e forte na vida do povo da época de Jesus. Sob a pressão, primeiro da dominação iduméia, e depois da romana, os olhos de todo o Israel es­tavam dirigidos quase fixamente em direção ao futuro, esperando, co­mo sob um encantamento, o Libertador, o Messias. "És tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro?" pergunta João Batista (Mt 11:3). Até a mulher de Samaria declara: "Eu sei que há de vir o Messias" (Jo 4:25. Irmão se regozija com irmão: "Achamos o Mes­sias!" (Jo 1:41). Os fariseus estão prontos para discutir a questão: "Que pensais vós do Cristo? de quem é filho?" (Mt 22:42), e homens notá­veis entre o povo reconhecem ansiosamente: "Quando vier o Cristo, fará, porventura, maiores sinais do que este homem tem feito?" e en­tão confessam ousadamente: "Ele é o Cristo" (Jo 7:31,41). Todo o pensamento da época, pelo menos em Israel, estava focalizado na ques­tão da vinda do Messias. Para os olhos judaicos, a era messiânica não parecia obscura e desconhecida, como o futuro para quem está no li­miar de um Ano Novo. Desde o tempo dos profetas, o povo elaborou a sua própria opinião a respeito do Prometido, algumas vezes mais dis­tintamente, algumas vezes menos; e o desfecho disso foi que as suas impressões a respeito dEle eram tão claras como se ele já tivesse vindo. Porém, só depois a verdadeira aparência de Jesus correspondeu às es­peranças de Israel, e isso apenas por alguns momentos; e somente uma vez, um pouco mais tarde, ela se aproximou em certa medida das suas expectativas. João 6 descreve o momento em que Jesus corporificou os pensamentos do Seu povo. Como um rei popular, Ele distribui pão • peixe para os milhares que se acampam ao Seu redor. É despertado o excitamento do povo. Imediatamente eles estão ansiosos — não pa­ra fazê-lo rei, mas para prestar-Lhe homenagens como o rei que agora aparecera e a quem eles não haviam reconhecido em Seu disfarce (Jo 6:15). Da mesma forma, no começo da Semana da Paixão, a solenida­de da entrada em Jerusalém despertou novamente os pensamentos da realeza de Jesus (Mt 21:8,9). Porém, olhando através de outros pris­mas, não encontramos em Israel qualquer desejo de render homenagens a Jesus como o Messias. Visto que toda a nação anelava apaixonadamente pela vinda do Messias, como este fato pode ser explicado de outra forma que não seja o fato de a aparência de Jesus não corresponder às esperanças de Israel? Se assim não fosse, a Sua vinda deveria ter ti­do o efeito de uma fagulha em um barril de pólvora.
Todavia, Jesus causou uma impressão bem diferente. O Seu povo estava bem consciente de que Ele reivindicara o título messiânico; de fato, por fim essa reivindicação foi feita abertamente (Mt 24:64), e Ele se tornou uma ofensa, provocando a contradição com o povo. Este Homem é o Messias? Para o Seu povo isto parecia uma contradictio in adjecto, e eles clamaram furiosamente: "Crucifica-O! Crucifica-O!" Porém, este fato nos é significativo, pois um Messias que é uma ofen­sa não será um Messias adornado sem discriminação pelo amor dos Seus seguidores.
Tentemos encontrar resumidamente o que, estando em Jesus como Messias, decepcionou o povo. Cremos que Ele não conseguiu de duas maneiras corresponder às expectativas que eles tinham: Ele era grande demais, e humilde demais para adequar-se às idéias de Israel.
Jesus era grande demais para o Seu povo. Pode-se perguntar: É possível uma coisa dessas? Não se deve presumir que quanto maior fosse o Messias esperado, melhor? Quanto mais glorioso fosse Ele, mais benvindo seria no círculo dos que O esperavam? Contudo, que reivindicação de grandeza podia Ele fazer, que seria uma pedra de tropeço para o Seu povo? Em Justino, o Mártir, lemos que Trifon, o Judeu, disse a respeito das esperanças messiânicas de Israel: "Todos sabemos que o Cristo será um homem, nascido de homem." E em concordância com isto, toda a teologia judaica do passado — para não falar da teologia posterior, que se coloca em contraste direto com o Cristianismo — está tão longe de atribuir uma natureza divina ao Messias, que prefere rejeitar mediante interpretação forçada, qualquer coisa que na profecia vétero-testamentária, segundo se pensa, sugira tal coisa.   É necessário ler Isaías 9:5 na tradução do Rabi Jonathan: "A nós uma criança nasceu, um filho a nós nasceu; Ele tomou sobre Si próprio a lei, para guardá-la; o Seu nome é chamado, desde a eternidade, Maravilhoso, Deus poderoso que vive até a eternidade. O Messias cuja paz será grande sobre nós em Seus dias." E agora compare o Nazareno com este conceito: "Sendo tu ho­mem, te fazes Deus a ti mesmo" (Jo 10:33), que foi a maneira como Israel declarou a sua rejeição do Rabi Galileu. E o evangelista mencio­na especialmente como razão para a oposição mortal que se levantou contra Ele, o fato de que Ele disse que Deus era Seu Pai, fazendo-Se igual a Deus (Jo 5:18).
Precisamos tentar entender claramente a crença fixa de Israel em um único Deus. "Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor" - era isso que eles escreviam em seus filactérios (Mt 23:5), bem como em seus corações. E ali estava um homem fazendo-se igual ao seu úni­co Deus! Os rabis haviam dito acerca da Chequiná:[1] Onde dois ou três estiverem reunidos, ela está no meio deles. Mas este Homem disse exa­tamente a mesma coisa a Seus seguidores a respeito de Si mesmo (Mt 18:20). Através dos profetas, Jeová havia prometido a Seu povo: "Desposar-te-ei comigo em fidelidade" (Os 2:20), e agora este Filho do ho­mem Se coloca no lugar de Deus, como noivo. De um só fôlego ele fa­lou de Si mesmo e de Seu Pai, falando dos filhos dos homens como Sua habitação (Jo 14:23). E enquanto o israelita piedoso falava com reve­rência dos anjos de Deus, e mencionava o seu Deus usando o nome mais glorioso que conhecia (Yahweh Sabaoth), louvava o Altíssimo como o Deus das incontáveis hostes de anjos, este Jesus, em palavras que aos ouvidos judaicos soavam como a mais arrogante presunção, falou dos anjos como Seus anjos, a quem Ele dava ordens como lhe agradava (Mt 13:41; 16:27). Não seriam exatamente os mais piedosos dentre eles que Lhe iriam dizer, como se Ele estivesse louco: "Quem, pois, te fa­zes ser?" (Jo 8:53).
Já vimos que o povo foi ainda mais longe em julgá-lo. "Este homem blasfema contra Deus," diziam os judeus. Mas havia uma cousa a respei­to de Jesus que suscitava o seu julgamento. De uma coisa os judeus es­tavam convencidos: "Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus?" (Mc 2:7). O precursor do Messias podia preparar o caminho para a remissão de pecados (Mc 1:4); o próprio Messias podia fazer intercessão pelo pecador (Is 53:12); mas o fato de Jesus outorgar perdão de pecados como se isso viesse dEle próprio, contradizia frontalmente o que o Seu povo cria que qualquer homem era capaz de fazer, e o povo concluiu sem hesitação: "Este blasfema" (Mt 9:3).
Não houve uma terceira oportunidade, ou mais exatamente, uma terceira razão para Israel pronunciar um julgamento tão severo.[2] Mas eles tinham razões suficientes para ficar ofendidos por causa da grandeza que Jesus reivindicava. Mencionemos algumas dessas razões.
O Nazareno exigia para Si próprio serviço demais, para ser o Messias. Israel esperava que Ele os ensinasse a adorar o Senhor "sem temor, em santidade e justiça perante ele, todos os nossos dias" (Lc 1:74-75). Guia­dos por Ele, eles queriam dedicar-se mais plenamente do que nunca ao seu Deus. Mas em vez disto, Jesus em grande parte colocou-se no lu­gar de Deus, fazendo-se o alvo das suas ansiosas expectativas (Lc 12:35s.), e declarando-se o Senhor a quem os servos deviam ministrar (Lc 12:46).
Mais uma vez, no tempo dos profetas um dos sinais dos falsos profetas sempre fora que eles profetizavam "o que lhes vem do coração" (Ez 13:2). Mas este Jesus estava tão consciente de ter o direito de falar da parte do Pai que testificou acerca do Espírito que Ele haveria de man­dar, e que deveria recebê-lo e testificar dEle (Jo 16:14).
Além do mais, os judeus ficaram à distância, feridos, quando nosso Senhor Se exaltou acima das augustas figuras do passado. "És tu, por­ventura, maior do que o nosso pai Jacó?" perguntou a mulher de Samaria (Jo 4:12). "És maior do que o nosso pai Abraão?" inquiriram os judeus (Jo 8:53). E eles murmuraram contra Ele, quando pareceu que Ele estava Se exaltando acima da mais nobre de todas as persona­gens — acima de Moisés (Jo 6:32, 41s.). Para aquele povo, tão orgulhoso dos seus antepassados, isso parecia acrescentar injúria a injúria; mas não seria dessa forma que qualquer homem seria glorificado aos olhos de Israel.
E depois, pensar que o Nazareno ousaria tocar no Templo, instituição tão querida de Israel, e declarar que era uma habitação mais santa para a presença de Deus do que aquele edifício sagrado, cujas câmaras interiores eram especialmente santas para Israel, e cujas recâmaras ain­da mais interiores sacrossantas demais até para os sacerdotes de Israel entrarem! "Aqui está quem é maior que o templo" (Mt 12:6). Que reivindicação absurda para os ouvidos de um israelita!
"Ainda mais desprezível me farei, e me humilharei aos meus olhos" (2 Sm 6:22). Com estas palavras o Rei Davi certa vez descreveu a uma princesa zombeteira a humildade para com Deus que ele exaltava como Jóia preciosa. Israel esperava ver essa mesma jóia resplandecendo na fronte do Filho de Davi; uma humildade que se prostrava até o pó diante de Deus, enquanto que exibia majestade real diante dos filhos dos homens. Ao invés disto, eles viram em Jesus um Homem que tinha a fronte erguida bem alto diante de Deus no céu: "Eu e o Pai somos um; quem me vê a mim, vê o Pai" (Jo 10:30; 14:9), mas que Se curvava incompreensivelmente diante dos filhos dos homens, escolhendo serviço a eles como seu tema (Mt 20:27s.).
E isto nos leva à segunda razão para declararmos que a declaração de Jesus, fazendo-se Messias, fez dEle uma pedra de tropeço para o Seu povo. Ele não era apenas grande demais para eles; observado segundo outro prisma, Ele era humilde demais. Não havia nada nEle que se coa­dunava com a concepção popular a Seu respeito.
Jesus era humilde demais para o Seu povo. Eu mencionarei primei­ramente a Sua atitude para com as autoridades. Dentre os judeus, os agentes de Deus sempre se haviam acostumado a confrontar as autori­dades terrenas com mais força e energia do que esse Homem. Foi o próprio rei, na época de Elias, que enviou capitães de cinqüenta para capturá-lo. Mas o profeta não hesitou em destruí-los a todos (2 Re 1:9). Em um caso semelhante, embora falando do poder que estava à sua dis­posição, Jesus nunca levantou sequer um dedo para Se opor aos que ha­viam sido enviados para capturá-lo (Mt 26:52s.).
Os heróis do Senhor em Israel foram ainda mais desrespeitosos quan­do se tratou de relacionarem-se com as autoridades gentias. Aos olhos dos judeus, elas não eram melhores do que ladrões. Matatias, pai dos Macabeus, não hesitou em abater os judeus que, por ordem do rei, ha­viam feito uma oferta no altar de Modin, e matou o capitão de Antio­quia na mesma ocasião (I Mac 2:25). E este foi o legado que ele deixou para os seus filhos: "E juntareis a vós todos os observadores da lei; e to­mai vingança dos agravos feitos ao vosso povo. Pagai às nações o mal que elas vos têm feito" (I Mac 2:67s.). E o que foi que Jesus fez? Fa­lando calmamente a respeito do governante herético que lhes havia sido imposto, a quem os judeus odiavam, e de quem até a pessoa mais pie­dosa desejava ver-se livre, Ele disse, como se não tivesse a menor idéia dos anseios do Seu povo: "Dai a César o que é de César" (Mt 22:21).
Porém, nenhuma destas considerações chegou ao cerne do assunto em que o Nazareno não conseguiu de forma alguma mediar-Se confor­me as expectativas do Seu povo. Isto pode ser resumido na palavra "rei." As palavras "Messias" e "rei", para os judeus, eram sinônimas. Quando Israel esperava um Messias, estava esperando um rei. Na pessoa da criança recém-nascida, Herodes temeu encontrar o rei futuro, herdeiro do trono por direito; os sábios do Oriente trataram o infante como rei; o arauto que correu adiante dEle, insistiu para que Ele subisse ao trono real; os discípulos pediram lugares perto do Seu trono; o povo manifes­tou a sua prontidão em render-lhe homenagens reais — e Ele esquivou-se às suas reivindicações e ofertas. Quando Saul ascendeu ao trono, não foi com tanta amargura que o povo murmurou: "Como poderá este homem salvar-nos?" (Jo 19:14s.; 1 Sm 10:27).
Será que Israel estava no caminho errado quando esperava um rei? Os seus próprios profetas os haviam guiado por esse caminho. Este era o ponto de vista do Antigo Testamento: Aquele através de quem Deus devia levar o Seu Reino a se cumprir precisava ser acima de tudo um rei, um conquistador, e ao mesmo tempo um amante da paz. O quadro desse advento fora brilhantemente pintado pela mão dos profetas. O go­verno deveria estar sobre os Seus ombros (Is 9:6); para o crescimento do Seu governo e para a paz não haveria fim, sobre o trono de Davi e so­bre o Seu reino, para o estabelecer (Is 9:7). Ele deveria levantar-se e alimentar-Se da força do Senhor, na majestade do nome do Senhor Seu Deus, e ser grande até os confins da terra (Mq 5:4). E até os silenciosos da terra, em tempos de depressão, e no decorrer de toda a profunda humilhação da nação, conservaram a sua esperança firme nas profecias, e ansiaram apaixonadamente pelo seu rei. Para esses também o primeiro ato do Messias esperado seria quebrar o jugo estrangeiro, e tirar o Seu po­vo da servidão, com milagres semelhantes aos da época de Moisés (Lc 1: 71,74; 2:38; 19:11; Mt 20:21). Mas essa esperança jorrou mais forte e mais tempestuosamente no peito dos fariseus e nos pensamentos das multidões das quais eles eram os líderes. E embora o povo mais silen­cioso falasse também da regeneração interior e da transformação que teria lugar quando o Messias aparecesse (Lc 1:75, 77, 79), os pensamentos dos outros haviam assumido uma conotação política. Nas enunciações dos profetas, as expectativas mundanas eram como a impureza que se­ria refinada e retirada, quando o objetivo fosse alcançado. Mas em vez de se começar a retirar a impureza antes do advento do Messias, foi exatamente nessa época que o conteúdo moral e religioso das profecias messiânicas foi enterrado, no que concernia à maioria do povo, debaixo de uma onda de sonhos e aspirações políticos; e o alvo dos seus anseios agora era o rei que libertasse o Seu povo.
E agora, Jesus? Não foi ele como um total desalento, quando o Seu povo voltou-se para Ele com tanta esperança e expectativa? Como o povo podia ver nEle o magnificente Filho de Davi? Onde estava o glo­rioso Rei de reis? Sem casa e sem posses, o Filho de Deus tomou a for­ma de um servo. Ele não tinha onde reclinar a cabeça. Mesmo no clí­max da sua glória terrena, Ele apareceu diante do Seu povo montado numa cria de jumento, e por fim Ele foi açoitado e desprezado.[3]
Podem dizer que isto é exagero, e que a Sua aparência não foi intei­ramente desprovida de brilho como sugeri. Alguém pode indicar os raios de glória que os Seus milagres emprestaram à Sua pessoa. Contu­do, podemos chamar isso de glória?   Havia neles glória suficiente para um Messias? Havia uma semelhança que identificava os Seus milagres; a grande maioria deles foi realizado em pessoas doentes. Ele evitou o resplendor e tudo o que atraísse os olhares, tudo o que exigisse respei­to, em Seus milagres. Eles foram realizados em quartos de enfermos (Mc 1:31; 5:42), diante de pequenos grupos de pessoas, perante poucas testemunhas, comparativamente; e freqüentemente os que foram cura­dos ouviram a recomendação de não falar nada a respeito do milagre (Mc 1:34; 5:43). Até mesmo em Seus milagres Jesus estava preocupado com o indivíduo e com a salvação de almas (Mc 2:5; Jo 5:8); Ele não considerou o efeito deles sobre a multidão. Só um dos seus milagres, a alimentação de cinco mil pessoas, manifestou o Seu interesse pela multidão — e assim mesmo, não era Sua intenção impressioná-la (Jo 6:15) — e este milagre comoveu o povo, e propiciou a Jesus um momento de glória aos olhos de milhares. Não obstante, quanto a outros aspectos, os Seus milagres não foram uma prova, para a grande massa popular, de que Ele era o Messias.[4]
E assim, os judeus não ficaram satisfeitos, nem mesmo com os mila­gres de Jesus. O que eles viram os levou apenas a pensar nEle como um profeta. Contudo, primeiramente eles exigiram de Jesus provas definiti­vas de que Ele era o Messias. "Pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal vindo do céu" (Mt 16:1). As profecias do Antigo Testamento justifica­vam este pedido (Jl 3:3s.). E Jesus recusou-Se a atender. Por duas vezes Samuel havia recebido um sinal do céu em resposta à sua oração. O pe­dido de um sinal, feito por Elias, obteve enorme sucesso. "Lançai mão dos profetas de Baal, que nenhum deles escape." O povo teria feito qual­quer coisa para ele naquele dia (1 Re 18:30). Isaías ofereceu a Acaz um sinal do céu (Isa 7:11). Não obstante, Jesus não apresentou ao Seu povo a mesma prova constituída de um sinal que o extasiasse e convencesse (Mt 4:5s.). Ele limitou os Seus milagres a um círculo silencioso de pes­soas doentes. Mas essa não era a espécie de milagre que ajudasse e satis­fizesse Israel, que esperava um rei que o libertaria das humilhações da sua situação, naquela época. Assim, mesmo em Seus milagres Jesus foi uma pedra de tropeço para os sentidos físicos dos Seus contemporâ­neos. [5]
Aos olhos dos judeus, a cooperação de anjos também poderia ter de­sempenhado um papel importante — e teria conseguido satisfazê-los. Exemplos do Antigo Testamento encorajavam essas expectativas. Tobias tivera como acompanhante um anjo; Daniel, na cova dos leões, e os três homens na fornalha babilônica, tiveram anjos que os protegeram; um exército inteiro de cavaleiros de fogo rodearam Eliseu (2 Re 6:17). Acrescente-se a isto o fato de que na época de Jesus o povo tinha a tendência de ver intervenção angelical em todos os lugares. No Tanque de Betesda, era um anjo que agitava as águas (Jo 5:4); quando se ouviu uma voz do céu sobre Jesus, muitos se apressaram a explicar: "Um anjo lhe falou" (Jo 12:29). Nos tribunais superiores foi considerado algo normal o fato de um espírito ou anjo ter falado com o acusado Paulo, e nenhum protesto foi levantado contra essa conjetura (At 23:9, cf. também 12:15, em que Rode pensou que o anjo de Pedro estava à porta). E como se não fossem suficientes os exemplos do Antigo Testamento e a inclinação dos Seus contemporâneos em crer na intervenção de anjos, o pró­prio Jesus suscitou a esperança de que seres angelicais desempenhariam um papel proeminente na Sua vida. Se eles eram "Seus anjos," certa­mente O serviriam; e Ele definidamente permitiu que os Seus primeiros discípulos esperassem isso. "Vereis o céu aberto e os anjos de Deus su­bindo e descendo sobre o Filho do homem" (Jo 1:51). Depois disso, a não ser por um colorido reparo no fim do episódio do deserto (Mt 4:11) e no Getsêmane (Lc 22:43 — e este versículo é omitido nos manuscritos mais antigos), a narrativa carece inteiramente de quaisquer aparecimen­tos ou ministrações angelicais. O círculo em que Ele nasceu — Zacarias, Maria, José e os pastores (Mc 1:11, 26;2:9;Mt 1:20; 2:13,19) - recebeu estas ministrações angelicais, e o mesmo aconteceu com os Seus discípu­los depois da Sua morte (At 5:19; 8:26; 10:3; 12:7). E o Senhor dos anjos precisou passar sem eles! Será que o pincel do artista segue a linha das expectativas populares neste caso?
Porém, retornemos a assuntos mais importantes em que Jesus foi hu­milde demais para o Seu povo. Este queria um rei — e o que era Ele? "Um semeador saiu a semear." Quando se cumprissem os dias, o Messias de­veria vir; Ele deveria levar a uma conclusão as coisas que permaneciam no estado em que estavam; Ele deveria iniciar imediatamente o juízo — de Israel, e especialmente dos gentios. E depois do juízo Ele deveria reinar como o poderoso Rei da Paz. E o que fez Jesus? Ao invés de executar qualquer conclusão, Ele criou um novo começo. "O semea­dor saiu a semear." Mas Israel ofereceu-Lhe as suas homenagens, e espe­rava que Ele agisse e assumisse a Sua posição real. Estava muito bem que o arauto do rei pregasse e conclamasse o povo a achegar-se Àquele que havia de vir (Lc 1:76); porém, qual era o sentido de surgir um rei pregador? Parecia aos judeus que Jesus não conseguira desempenhar as Suas funções de direito. E por fim, depois de esperar impacientemente que Ele assumisse o Seu lugar legítimo, mesmo quando a sombra da cruz já se estendia sobre Ele, o Seu povo Lhe perguntou: "Até quan­do nos deixarás a mente em suspenso?" (Jo 10:24).
* * *
Jesus foi ao mesmo tempo grande e humilde demais para o Seu povo, e portanto, como Messias, Ele foi uma pedra de tropeço para Israel. Po­rém, houve outras maneiras pelas quais Ele ofendeu as suscetibilidades mentais do Seu povo. Mencionemos algumas delas.
João cresceu e fortificou-se no espírito, e permaneceu nos desertos até os dias da sua manifestação a Israel (Lc 1:80). À semelhança de Moisés, este profeta do Senhor saiu da solidão do deserto, e a mesma coisa se esperava do Messias. "Ninguém verá o Filho de Deus antes dos dias do Seu aparecimento," diz o Quarto Livro de Esdras, e no Targum de Jônatas encontramos o mesmo sentimento. O evangelista nos conta que os judeus declararam: "Quando, porém, vier o Cristo, ninguém saberá donde ele é" (Jo 7:27). E onde cresceu Jesus? Na oficina de um carpinteiro, diante dos olhos de todo o povo. Todos sabiam como Ele fora criado na pobreza, conheciam a Sua mãe e as Suas irmãs. Não é de se admirar que isto fosse uma decepção (Mc 6:3).[6]
Outro ponto: inquestionavelmente é verdade que se esperava que o Messias viesse de Belém — e este Jesus crescera em Nazaré. Essa cidadezinha era considerada moralmente decadente, e tinha má reputação. Po­demos estar corretos em considerar as palavras de Natanael como pro­vérbio: "De Nazaré pode sair alguma coisa boa?" (Jo 1:46). Assim sen­do, Nazaré, lar de Jesus, era uma pedra de tropeço para os judeus. Mas também era uma ofensa o fato de Jesus simplesmente sair da Galiléia, quanto mais de Nazaré (Jo 7:41). E Esse Galileu tornou-se ainda mais pedra de tropeço quando nos lembrarmos de que os rabinos nunca fo­ram capazes de concordar entre si quanto à hipótese de as dez tribos participarem da reabilitação futura de Israel. E agora, o próprio Messias vinha da Galiléia!
O Seu povo também ficou decepcionado com a atitude que Jesus adotou para com os Samaritanos. Jesus, filho de Sirac, falando do po­vo insensato que habitava em Siquém, declara: "Dois povos aborrecem a minha alma, e o terceiro, que eu aborreço, não é um povo" (Eclesiás­tico 50:25). Quando Jesus estava enviando os Seus discípulos em sua primeira missão e lhes recomendou: "Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de Samaritanos" (Mt 10:5), estava falando de maneira que Seu povo podia entender bem. Porém, mais tarde, este fi­cou profundamente ofendido pelo fato de Ele conversar com a mulher samaritana junto ao poço, e com o povo da cidade samaritana de Sicar (Jo 4:9, 41), e de Ele permanecer nas suas cidades (Jo 4:40; Lc 9:52). E até mesmo em uma parábola Ele colocou um samaritano acima de um sacerdote e de um levita (Lc 10: 33). Por isso, os israelitas O acusa­ram, dizendo: "Porventura não temos razão em dizer que és samaritano?"(Jo 8:48).
Contudo, precisamos nos lembrar de uma coisa acima de tudo. E es­sa é morte que Jesus sofreu. Em todas as suas expectativas, Israel jamais pensara em um Messias sofredor.[7] Os judeus podiam concordar em que o Messias sofresse pelos pecados do Seu povo antes da Sua manifestação, que enquanto a esperava vivesse uma vida de humildade entre os po­bres e necessitados, e que depois tivesse de enfrentar terríveis batalhas para libertar o Seu povo. Nesse sentido, pode-se falar de um Messias sofredor dos judeus. Mas o que se pode dizer de um Messias que no fim é vencido? Um Messias que morreu na cruz? Que idéia incrível! Quando Jesus tentou preparar o Seu povo para esta conclusão, a sua resposta foi: "Nós temos ouvido da lei que o Cristo permanece para sem­pre; e como dizes tu ser necessário que o Filho do homem seja levanta­do? Quem é esse Filho do homem?" (Jo 12:34). E quando Jesus por fim foi dependurado na cruz, a multidão toda se convenceu: "Blasfemou! que necessidade mais temos de testemunhas?" (Mt 26:65).


[1] A presença divina que repousava como nuvem ou luz visível sobre o propiciatório.
[2] Embora seja pronunciado uma terceira vez pela boca do Sumo Sacerdote (Mt 26:65).
[3] Pense, também, como Ele Se escondeu freqüentemente deles (Jo 7:1,7,8,10; 8:59; 11:54; Mt 4:12). Há alguma evidência de esplendor aqui?
[4] Por amor à clareza, chamamos a atenção para os dois homens que se apresenta­ram com Jesus no Monte da Transfiguração: Elias e Moisés. Ambos haviam fei­to milagres mais gloriosos do que Ele. Quantos atos miraculosos foram executa­dos pela tisbita! Elias ocasionou uma seca de três anos e meio na terra; foi ali­mentado por corvos; tornou inexauríveis a botija de óleo e a panela de farinha da viúva; ressuscitou o seu filho; fez descer fogo do céu sobre o seu holocausto; mandou que caísse chuva; correu quilômetros a fio adiante da carruagem do Rei, mais rápido do que os seus cavalos do monarca; mais uma vez, fez descer fogo do céu sobre os capitães e seus cinqüenta homens; dividiu o Jordão com sua capa, e subiu ao céu em uma carruagem de fogo. É um quadro vivo, e o homem que ele retrata quase cega os nossos olhos. Mais gloriosos ainda, e bem maiores, foram os atos de Moisés: as pragas do Egito; a passagem pelo Mar Ver­melho; o sustento dos israelitas no deserto. Aqui vemos a mesma palpitante di­versidade dos milagres de Elias, mas com um esplendor adicional: todos os mi­lagres são realizados para uma multidão, e diante dos olhos dela. Se pensarmos nesses dois homens, Elias e Moisés, podemos entender que tipo de maravilhas os judeus esperavam do seu Messias - atos miraculosos em favor de toda a na­ção, em grande variedade e em grande número. E havia uma semelhança quase monótona nos milagres de Jesus, que foram realizados em favor dos membros desafortunados da comunidade, e estavam intimamente relacionados com a Sua pregação, eram símbolos da Sua obra espiritual - curando o corpo ao mesmo tempo que Ele curava a alma. Orígenes admite abertamente para o Judeu de Celsus que os milagres de Moisés foram maiores.
[5] Outro ponto deve ser especialmente mencionado aqui. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.   Seria essa a atitude de um conquistador?   Seria esse o comportamento de Alguém que estava para roubar à morte a sua presa? Nas mesmas  circunstâncias, Elias e Eliseu também demonstraram um estado de agitação, pois estavam tratando com pessoas que lhes eram caras (1 Re 17:20; 2 Re 4:8), mas engoliram as suas lágrimas, como é apropriado aos homens em cujas mãos está a vitória.
[6] É utilíssimo ler Eclesiástico 38:25-33 em conexão com este pensamento.
[7] Os israelitas não recuaram nem da ousadia de distorcer as profecias que apresen­tavam o Messias como o servo do Senhor, para se livrarem do pensamento do so­frimento e da morte do Messias. O Rabi Jonathan traduz Isaías 53:2 de forma que fica assim: "Os retos serão grandes diante dele, sim, como ramos que flo­rescem; e como uma árvore que estende as suas raízes até as torrentes de águas, assim a geração dos justos se multiplicará na terra, que tem necessidade dEle. A Sua aparência não será a aparência de uma pessoa comum, nem o Seu temor o temor de um plebeu, mas um resplendor santo será o Seu brilho, e todos os que O virem O contemplarão." Presume-se que a maioria das frases aludem à miséria de Israel ou mesmo à destruição que o Messias trará sobre os pagãos e os desviados. Eles serão desprezados e rejeitados, como um homem de dores e que sabe o que é padecer (Is 53:3). Ele entregará os poderosos do povo "co­mo ovelha para o matadouro, e como ovelhas mudas perante os seus tosquiadores." Depois disso, podemos nos admirar com o fato de a morte de Jesus ter sido uma ofensa (no texto grego original, um escândalo) para Israel?