"Loucura para os gentios. "
1 Coríntios 1:23
O objetivo deste é nos apresentar ao mundo do pensamento gentio na época de Jesus. Foram os conceitos e idéias dos gentios que deram origem ao retrato que temos de Cristo? "Os gregos buscam sabedoria," diz o apóstolo (1 Co 1:22), e ao falar dos gregos ele refere-se ao mundo cultural não judaico daquela época. Paulo achava que o alvo do pensamento gentílico da época era amplamente caracterizado nestas duas palavras: "Busca a sabedoria," e assim a figura ideal concebida por este pensamento deve ter sido a de um "homem de sabedoria." De fato, qualquer pessoa familiarizada com esse período sabe que a idéia do "sábio" desempenhava papel importante na filosofia greco-romana.
É verdade que esta expressão — o homem de sabedoria — não deve ser considerada em sentido muito estreito. Tal homem se preocupava também com a sabedoria prática. O sábio era caracterizado não apenas por seu conhecimento, mas por todo o seu comportamento e modo de ser. O seu conhecimento tornava o seu modo de vida magnânimo, nobre e grande — isto é, sábio.
Ora, não pode ser negado que na época de Cristo, Israel compartilhava em grande parte desse padrão de pensamento, tão generalizado no mundo gentílico. Muita coisa que parecia importante, grandiosa, magnânima e sábia para os gentios, era considerada pelos judeus sob a mesma luz. O mundo cultural naquela época tinha muitas afinidades: um grande acervo de experiências em comum ligava judeus, gregos e romanos, a despeito das suas diferenças quanto a outros aspectos. Neste capítulo, portanto, só o que era peculiarmente judeu será colocado de um lado. Mas nos assuntos em que os judeus, como filhos daquela época, tiverem o mesmo conceito que os seus contemporâneos, as suas opiniões deverão ser levadas em consideração; isto é, em relação aos interesses deste exame. Porque devem ter sido eles que, se isso realmente foi feito, construíram o retrato glorificado de Cristo, a partir do material que estava à mão, comum a judeus e gentios.
Por conseguinte, estamos interessados no tipo ideal que a humanidade como um todo — tanto gregos como judeus — criou como símbolo dos seus grandes homens, seus heróis daquela época. Que conceito faziam eles do homem grande e sábio? Aos olhos greco-judaicos — em suma, aos olhos do homem culto daquela época — era Jesus "o homem de sabedoria?" Aqui temos a paleta da qual vieram as cores que pintaram a resplandecente figura do Rabi de Nazaré?
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Foi uma falta de dignidade, de grandeza, de magnanimidade, uma falta de tudo o que se esperava encontrar em um homem sábio, que fez com que Jesus parecesse um louco para o mundo culto da época. E esta contradição de tudo o que, para o mundo, parecia marcar um homem como grande, é importante para nós em nossa apologética. Pois ninguém pinta um homem como um escândalo para todo o mundo ver, se deseja glorificá-lo; e se ele deve ser exaltado, ele não pode ser retratado como louco. Embora não possamos nem pensar em usar todo o tesouro que encontra-se aqui, esperando por uma defesa, gostaríamos de enfatizar dois pontos. Jesus parecia louco para eles em Sua atitude para com os homens, e em Seu comportamento diante do destino que Lhe coube.
Segundo este ponto de vista, portanto, consideremos primeiramente a atitude de Jesus para com os Seus semelhantes.
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"Ser sempre o primeiro, e esforçar-se mais do que os outros" é o retrato que o velho Homero traça do homem magnânimo. "Uma vida de honra ou uma morte coroada pela fama é a ambição de todos os homens nobres," conta Sófocles, fazendo eco ao mesmo pensamento. E de maneira semelhante, os israelitas que estavam na posição de nobres, a saber, os Saduceus e fariseus, tentavam tornar sentida a sua influência - mesmo em assuntos de menos importância como a sua maneira de saudar os outros na rua, ou como o seu lugar à mesa (Mt 23:6-7). "Ser sempre o primeiro, e esforçar-se mais do que os outros!" E Jesus fez isto? Quando Ele confessou: "Eu não aceito glória que vem dos homens" (Jo 5:41), aos olhos do mundo Ele Se excluiu da plêiade de mentalidade nobre.
Auto-suficiente e acanhado, o homem de mentalidade elevada, da maneira como Aristóteles o via, "segue orgulhosa e calmamente o seu caminho." Estabeleça o contraste entre este quadro e a atitude humilde do Filho do homem. De acordo com Aristóteles, é homem de mentalidade elevada aquele que, "sendo digno de grandes coisas, considera-se semelhantemente digno de grandes coisas." Mas na última noite, Jesus serviu aos Seus discípulos como escravo (Lc 22:27), indo tato longe ao desempenhar esse papel, a ponto de cingir-se com uma toalha e lavar os pés deles (Jo 13:4s.). Essa era atribuição de um serviçal, a obrigação de um escravo.
Aristóteles continua em sua descrição do homem de mentalidade elevada: "Ele desfruta com moderação das honras a ele atribuídas por homens grandes e excepcionais, como sendo merecidas, ou como sendo menores do que as que ele merece." Pois bem: Jesus não recebeu muitas honras desse tipo; talvez o único testemunho da espécie que Ele experimentou foi quando Maria de Betânia ungiu os Seus pés. Como aquele ato agradou o humilde Jesus! (Mt 26:13). "Mas o homem de mentalidade elevada desdenha a honra que lhe é atribuída pela populaça, em ocasiões sem importância, pois ele está acima dela," diz Aristoteles. Simão, o fariseu, raciocinou da mesma forma, quando murmurou: "Se este homem fosse profeta, saberia quem é esta mulher, que espécie de mulher é esta que Lhe tocou, e a afastaria dEle." Mas Jesus sabia que espécie de mulher era ela, e conservou-a a Seu lado, alegre com o amor agradecido de pessoa tão humilde (Lc 7:39s.). Para desgosto dos fariseus, Ele não desdenhou dos gritos de Hosana das crianças no Templo, como sendo uma honra muito pequena para ser digna dEle, mas deu proeminência àquele ato sem importância (Mt 21:15s.). Tamanha humildade escandalizava o mundo, e Ele parecia ao povo um homem sem valor.
Autoridade, fama, reconhecimento da parte do povo, estas características formam o brilho do sol que o homem de sabedoria busca. Mas se não o encontra, ele não se humilha de forma alguma. Orgulhosamente consciente dos seus méritos, ele se congratula, acariciando-se e admirando-se a si próprio. Os estóicos entendiam muito bem essa atitude. Diz-se que Zeno possuía a dignidade completa do homem culto em companhia dos seus superiores, a tal ponto que o Rei Antígones declarou que só uma vez em sua vida ele perdera a calma — em uma conversa com o filósofo. O que dizer a respeito de Jesus? Será que ele fez príncipes perderem a calma? Em certa ocasião ele apresentou-se diante de um rei, e Herodes e seus cortesãos escarneceram do Homem humilde que parecia objeto tão fácil da zombaria deles (Lc 23:2)!
Certo renome pode ser adquirido, também, mediante abjuração e renúncia. Diógenes não é o único cuja vaidade se deixou entrever através dos farrapos com que se vestia. Uma renúncia exagerada sempre atrai atenção. Jesus era "como os outros homens" e a Sua pobreza nunca se tornou fonte de vaidade. "Como outros homens!" Ele nunca Se empenhou em grandes negócios, mas era incansavelmente fiel em coisas pequenas. "As grandes mentes podem ficar indiferentes aos pequenos acontecimentos da vida diária - mas tanto quanto Ele foi capaz, o Maior de todos escolheu a vida diária como Seu lugar de trabalho." A Sua humildade vinha do coração, mas para os Seus contemporâneos isso era sinônimo de falta de dignidade. Ninguém procuraria o "homem de sabedoria" se coberto dessas vestimentas.
Vamos demorar-nos ainda mais um pouco no assunto da humildade de Jesus, encarando-a, agora, de um outro ângulo. Foi especialmente o relacionamento de Jesus com o povo que, aos olhos dos Seus contemporâneos, revelou nEle uma falta de dignidade.
Odi profanum vulgus et arceo — Odeio a populaça e a conservo longe de mim, cantou Horácio alguns anos antes do nascimento de Jesus, em um de seus odes mais conhecidos. Aristóteles também, confirma este sentimento, quando fala do seu homem ideal: "Ele é franco porque ama o desdém. E por isso, fala a verdade, exceto quando fala ironicamente; isto ele faz quando relaciona com a populaça." As vozes judaicas não ficam caladas a respeito deste mesmo testemunho, pois os fariseus disseram desdenhosamente: "Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita." (Jo 7:49). Judeus e gentios achavam que era uma marca de eficiência lutar para subir; mas Jesus não lutou nessa direção. O Seu coração Se voltou para as pessoas comuns, simples, sem cultura, de tal forma que Ele agradeceu a Deus por tê-lo revelado aos pequeninos (Mt 11:25), e falou como um dos Seus maiores feitos o fato de que o Evangelho é pregado aos pobres (Mt 11:5).
Todavia, aos Seus contemporâneos, parecia que o relacionamento de Jesus com as pessoas que O rodeavam tinha um aspecto ainda pior. Ele não apenas descera de nível, a encontrar-se com o povo humilde e inferior, mas também incluiu em Seu círculo pessoas sem honra, que haviam sido marcadas como pecadoras empedernidas (Lc 15:1; 19:8; 7:37). O antigo poeta Teognis já emitira uma advertência contra conexões assim; e um dos versos favoritos de Sócrates dizia: "Nunca se associe a homens ímpios; viva apenas com os virtuosos. Porque você aprenderá virtude com os virtuosos, mas perderá a sua própria razão com os ímpios" (cf. Tobias 4:18).
Contudo, não é possível levantar os que caíram? Os antigos meneavam a cabeça diante dessa possibilidade. "Se um médico tivesse recebido de um deus o poder de curar as doenças dos sentidos, e curar o vício da humanidade, a sua recompensa certamente deveria ser rica; porém, nunca mediante a cultura, poderás reformar o vilão, fazendo dele um homem reto" (Teognis).
E como aconteceu com Jesus? Não foi uma condescendência graciosa que Ele mostrou para com essas pessoas decaídas, não houve simulação nEle ao descer da Sua alta posição para ajudá-las. Aos olhos dos orientais Ele não poderia ter mostrado mais clara e definidamente o Seu amor e amizade para com eles do que ao compartilhar da mesma mesa com eles, como Ele o fez, e comer do mesmo prato. Ele ensinou aos Seus discípulos: "E em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, indagai quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes" (Mt 10:11). Mas Ele, pessoalmente, o que fez? Ele falou a primeira palavra a um traidor como Zaqueu, e pediu-lhe hospitalidade. Não é de se admirar que os judeus que se mantinham na sua dignidade "murmuraram, dizendo que ele se hospedara com homem pecador" (Lc 19:7; cf. 15:2s.; Mt 9:11; 11:19).
Não podemos encerrar este estudo do relacionamento de Jesus com o povo humilde, sem chamar a atenção para mais dois aspectos deste assunto: como Jesus tratou as crianças, e a Sua atitude para com as mulheres.
Os gregos gostavam muito de crianças. Mas isso era uma caricatura, ligada com a infâmia que Paulo pune no primeiro capítulo da sua epístola aos Romanos. Há também no Antigo Testamento uma história envolvendo crianças. Mas quem quer ouvir um conto tão desagradável? Quarenta e dois meninos que viviam em Betel, que com disposição caracteristicamente infantil, zombaram da cabeça calva de Eliseu, foram estraçalhados por ursos, em resposta à oração do profeta (2 Re 2:23s.). A atitude de Jesus era incompreensível em um homem sábio ou grande. Ele tinha tempo e afeição para as crianças. "Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis," disse Ele, e em seguida tomou-os em Seus braços e os abençoou (Mc 10:14s.).
E o outro ponto: Ele manteve conversa com uma mulher. Que homem culto entre os judeus, ou que sábio entre os gregos havia desperdiçado um dos seus elevados pensamentos com uma mulher? Ela teria que ser mulher de dons mentais excepcionalmente notáveis. Mas no caso de Jesus a mulher provinha das classes mais baixas da sociedade, era do tipo mais comum, e pertencia a uma raça detestada! Que insensatez do Filho do homem! Em Sua humildade Ele desceu a nível tão baixo no relacionamento com todo mundo, onde quer que fosse, que por fim aos olhos da sociedade da época Ele se excluiu do círculo dos sábios e prudentes.
Porém, este ainda não é o fim da Sua humildade. Há ainda outro assunto que levou-o a entrar em conflito com as idéias do Seu tempo, com relação à grandiosidade e dignidade: o de dar e receber.
Aristóteles diz a respeito do homem de mente nobre: "Ele se inclina a conferir benefícios, mas ficaria envergonhado de recebê-los. Pois o primeiro caso é natural ao homem superior, mas o último ao homem inferior... E ele dá mais livremente do que recebe, fazendo desta forma seu devedor o doador do presente." Aristóteles está longe de ser o único na defesa deste conceito. Abraão exibiu estes delicados sentimentos do homem de mente elevada, quando replicou ao Rei de Sodoma: "Nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abraão" (Gn 14:23). Séculos mais tarde Eliseu foi movido pelo mesmo sentimento, quando o capitão do exército do Rei da Síria insistiu repetidamente com ele para aceitar um presente como agradecimento, e ele replicou: "Tão certo como vive o Senhor em cuja presença estou, não o aceitarei." (2 Re 5:16). Diógenes, em sua barrica, era orgulhoso demais para pedir algo ao Rei de Macedônia. Epaminondas de Tebas vivia em circunstâncias miseráveis, mas o seu biógrafo nos conta que ele não quis aceitar nada do Estado, a não ser honra. Paulo, o apóstolo, era zeloso acerca da sua honra. "Eu, porém, não me tenho servido de nenhuma destas coisas, (roupa e alimento das mãos de outrem). . . porque melhor me fora morrer antes que alguém me anule esta glória" (1 Co 9:15). Ele trabalhou dia e noite (1 Ts 2:9; At 18:3; 20:33ss.) para ser capaz de dizer: "Sou livre de todos" (1 Co 9:19). E Jesus? Ele viveu do que Lhe era dado (Jo 12:6), talvez não como mendigo, mas como um que recebe esmolas.
Claro que sei que Paulo certa vez aceitou uma oferta. Foi a igreja de Filipos que teve permissão de fazê-la. Mas como ele manifestou orgulho ao recebê-la! "E sabeis também vós, ó filipenses, que no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo, no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros" (Fp 4:15). A congregação em Filipos devia entender que um favor lhe fora prestado. Mas Jesus tinha muitos benfeitores. Judas "carregava o que era dado" - isto não dá a idéia de que eles faziam discriminação quanto à origem das ofertas. Lucas fala expressamente acerca de "muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens" (Lc 8:3). Em Sua humildade, Jesus aceitava de todas elas, não compartilhando da jactância do Seu apóstolo: "Sou livre de todos."
"Ele dá mais livremente do que recebe, fazendo desta forma seu devedor o doador do presente." Elias agiu de acordo com a máxima de Aristóteles, em relação à viúva de Zarefate. O seu milagre recompensou ricamente aquela mulher pela comida e bebida que ela lhe havia dado, transformando-o rapidamente de devedor em benfeitor (1 Re 17: I4s.). Jesus sempre rejeitou a idéia de demonstrar a Sua superioridade, fazendo uso dos Seus poderes miraculosos, e em toda a Sua vida Ele aceitou humildemente o que Lhe foi dado.
Porém, o que falamos já é suficiente, acerca dAquele que disse acerca de Si mesmo: "Sou manso e humilde de coração" — e por isto não combinou com o retrato ideal que os Seus contemporâneos haviam criado do homem sábio, de mente privilegiada. A Sua insensatez era-lhes aparente ainda em outra forma: em Sua paciência e gentileza.
Os profetas do Senhor haviam vindo ao seu povo com uma mensagem simples. Eles a pregavam, e ao mesmo tempo previam o castigo que se seguiriam se a mensagem fosse rejeitada. Jesus procurou as pessoas com uma paciência que era simplesmente incompreensível tanto para judeus como para gentios; sem orgulho, condescendência ou mau humor. Que diferença entre Geazi e Judas, ambos ladrões! Geazi roubou em uma única ocasião — se aquilo pode ser chamado de roubo, pois ele meramente aceitou um presente sem o conhecimento de seu senhor — e como castigo ele foi ferido de lepra. Judas roubava continuamente — e era um tipo de roubo particularmente feio, da bolsa comum do pequeno grupo de homens — mas Jesus pacientemente conservou-o ao Seu lado (Jo 12:6; 2 Re 5:25ss.).
Os contemporâneos de Jesus ficaram ainda mais aborrecidos quando, em face de insultos, a Sua paciência transformou-se em suavidade. Tanto para judeus como para gentios, havia somente duas maneiras pelas quais um insulto podia ser enfrentado com dignidade; ele podia ser devolvido ou, se isso fosse impossível, podia ser orgulhosamente ignorado. Em ambos os casos o sentimento de superioridade se conservava, e não havia uma terceira saída. A lei de Moisés tornava compulsório o pagamento exato do mal ou prejuízo infringido (Gn 21:23; Dt 17:21), e os profetas agiram de maneira semelhante (Jr 11:18, 21ss.; 20:2, 6; 28:10,16s.). Sócrates dizia ser uma qualificação viril vencer os amigos fazendo o bem, e os inimigos ferindo-os. Aristóteles declara que "só quem tenha natureza de escravo suporta insultos ou os negligencia em seus companheiros," E Esopo e Platão não contradizem este ponto de vista, quando dizem: "É melhor sofrer prejuízo do que causá-lo." Porque não é errado, mas é um privilégio sagrado devolver insultos. E que fazer se não for possível exercitar esse privilégio? Então os insultos devem ser sabiamente ignorados. Não foram os estóicos os primeiros a descobrirem este tipo de sabedoria, pois, a respeito do mesmo assunto, Aristóteles já havia dito: "O homem de mente elevada desdenha insultos, especialmente os de homens de baixa estirpe." Jesus, todavia, não empregou nenhum destes métodos ao relacionar-Se com os Seus perseguidores. A Sua mão não realizou nenhum milagre de vingança, os Seus lábios não ordenaram nenhum castigo para subjugar os Seus oponentes; e também, Ele não ignorou orgulhosamente os insultos, mas condescendeu em responder até a um servo que Lhe havia ferido (Jo 18:23). Que insensatez do Filho do homem! Nem a este respeito Ele Se enquadrou nas idéias da Sua época, quanto ao significado da verdadeira grandeza.
Podemos aproveitar esta oportunidade para dizer uma palavra acerca do silêncio de Jesus (Mt 26:63; 27:12-14; Lc 23:9). Outros homens também, reconhecidos como grandes e sábios, têm se apresentado diante dos juízes, mas souberam como se conter e fazer com que a sua superioridade fosse sentida até pelos que os acusavam. Pense em Sócrates; durante o discurso que ele fez em sua própria defesa, os seus acusadores finalmente ficaram ali, sentados, como se fossem a parte culpada. Epaminondas, acusado em uma questão de vida e morte, tinha apenas um pedido a fazer: que eles esculpissem em seu túmulo: "Epaminondas foi sentenciado à morte pelos tebanos, porque forçou os lacedemonianos à vitória em Leuktra. . . e porque não desistiu da batalha enquanto não cercou a cidade." Como essas palavras irritaram o povo! Como fez subir o rubor da vergonha às faces dos juízes! Ou então, leia as palavras que os sete irmãos, nos dias dos macabeus, lançaram à face de Antíoco, o tirano, enquanto morriam (2 Mac. 7:14, 17, 19, 31, 34-37). Jesus conservou-Se calado — diante do Sumo Sacerdote, diante de Pilatos, diante de Herodes — sempre houve o mesmo silêncio. Parecia que a Sua mente estava tão confusa que Ele não soube como defender-se; e um homem culpado também fica em silêncio. Verdadeiramente, o homem natural não pode encontrar o caminho da Sua glorificação em Seu silêncio. Se tão somente o orgulho do desdém se tivesse irradiado desse silêncio! Contudo, encontramos aí algum resquício dele? Jesus quebrou o Seu silêncio várias vezes, diante de Pilatos, e dirigindo-se ao servo. E o resultado foi que o mundo manteve a sua opinião: aqui não temos nenhum sábio, nenhum nobre, nenhum homem de tirocínio segundo a carne.
A gentileza de Jesus para com os Seus oponentes foi ultrapassada por outra característica que pareceu ao mundo ainda mais néscia. Foi o Seu amor para os Seus inimigos.
Como já mencionamos, Sócrates assevera que é virtude viril vencer os amigos por fazer o bem, e os inimigos ferindo-os. Em pleno acordo com este preceito, os antigos se apegavam à idéia de vingança, "Não é doce o desdém que zomba do inimigo?" pergunta Atena a Sófocles. O homem que não procurasse vingar-se se tornava desprezível. A vingança fazia parte da justiça. Na época de Jesus, quase se pode dizer que Israel vivia alimentado pela vingança. No livro de Wallace, Ben Hur, Simonides diz: "Vingança é o direito dos judeus, é a lei," e Ben Hur replica: "Um camelo, até mesmo um cão, lembra o mal que lhe foi feito." E aqui esse romance captou o espírito da época. Tanto entre judeus quanto entre gentios, porém, esta sede de vingança admitia que o inimigo fosse poupado, se estivesse em aflição. "Odiei quando foi nobre odiar," diz Sófocles, e em seguida: "Compadeço-me até do meu inimigo, quando ele está em aflição." Aristóteles dá expressão à opinião generalizada, quando diz: "É indigno de um homem culto tornar-se forte às custas dos fracos." A história sagrada oferece, no Antigo Testamento, exemplos suficientes dessa mentalidade elevada para com o inimigo que estivesse em condições de inferioridade (2 Re 6:22; 2 Cr 28:15; 1 Sm 24:6; 2 Sm 4:11; Pv 25:21; Ex 23:4s.). Porém, em outros casos, pouco se sabia acerca de amor para com o inimigo; a retaliação era o ideal.
Todavia, no curso do tempo, a experiência ensinou que nem sempre era possível retaliar, revidar, e entre os estóicos encontramos muitas vezes uma fria resignação ou renúncia neste aspecto, bem como em outros. "Isso não me atinge." "O único inimigo do homem é aquele que o atinge," reflete Epíteto, "mas se renunciares às propriedades visíveis, nenhum homem poderá injuriar-te, não poderás ter inimigos." Da mesma forma Diógenes já afirmara: "Aquele que necessita de libertação precisa procurar um amigo verdadeiro, ou um inimigo mortal." Plutarco escreveu um ensaio a respeito da arte de fazer uso do inimigo. Por meio desses ardis, o inimigo se tornava inexistente, e a inimizade se tornava coisa sem importância. Mas essa indiferença certamente não era amor.
Também em Israel, o revide nem sempre podia ser usado. Mas o homem religioso havia encontrado outra maneira de provar a sua superioridade sobre o seu inimigo. Onde a sua própria mão era impotente, ele deixava a vingança por conta de Deus (Dt 32:35; Jz 16:28). Depois de tudo, um pedido de vingança podia ser feito a Deus (Rm 12:19; Eclesiástico 28:1). Precisamos pensar tão somente nos Salmos imprecatórios para nos lembrarmos das erupções dos sentimentos mais intensos, que expressavam a sede de vingança que bem conhecemos (Sl 94:1; 28: 4: 58:7ss.; 69:23ss.; 109:6ss.). Mas os livros dos profetas também estão cheios de orações para que Deus vingue o Seu povo (Jr 11:20; 15: 15; 18:23; 20:12, etc). Tome apenas um destes exemplos; como o capítulo 17 de Jeremias: "Sejam envergonhados os que me perseguem, e não seja eu envergonhado; assombrem-se eles, e não me assombre eu; traze sobre eles o dia do mal, e destrói-os com dobrada destruição" (v. 18). E então, contraste esta passagem com João 17 — a cena diante do Sumo Sacerdote. Ou, um contraste ainda mais agudo: compare o grito de vingança emitido pelos santos do Antigo Testamento (cf. 2 Sm 22: 48; Ne 6:14; Eclesiástico 25:10, para não falar do livro de Ester, que está cheio da idéia de vingança) com a oração de Jesus na hora da Sua morte. Que insensatez do Filho do homem! Mesmo aqui, aos olhos do mundo, Ele contradisse o ideal que o coração humano havia estabelecido como de verdadeira grandeza e de superioridade sobre o inimigo.
Jesus Se coloca como insensato em Seu relacionamento com os filhos dos homens. Desejamos encerrar esta parte de nosso estudo com uma palavra acerca da forma pela qual Jesus serviu os homens. Quanto a este aspecto também, no mundo antigo, houve duas maneiras pelas quais o homem de pensamentos elevados podia relacionar-se com seus semelhantes. Ele podia zombar deles e desdenhá-los, evitando-os, distante e auto-suficiente, como se para ele o mundo não existisse; ou podia habitar entre eles, mas como alguém que dominava sobre eles para o bem deles.
Os sete sábios da Grécia, com exceção de Tales, eram todos autoridades do Estado. Uma das frases atribuídas a Sócrates, embora sem provas, diz: "O filósofo (o homem de discernimento) precisa também ser governante." Platão diz: "Se os filósofos não são também os governantes, e se o poder do Estado e a filosofia não caminham de mãos dadas, infindável é o sofrimento do Estado e da humanidade." Através da boca de Telêmaco, Homero canta bisonhamente: "Eu aceitaria alegremente o poder de reinar, se Zeus mo enviasse! Ou você pensa que esta é a pior coisa que pode acontecer? Verdadeiramente, não é nada mau governar."
Os judeus pensavam de maneira idêntica. Os fariseus e os Saduceus, os "homens de discernimento" em Israel, ocupavam o governo como fato natural. Esse era o lugar adequado para homens de cultura. Além disso, o bem estar do povo parecia exigi-lo, pois só assim os cidadãos podiam ser compelidos, pela força se necessário, a fazer o que era bom para eles. Neemias, em sua época, seguiu a mesma linha (Ne 13:7ss.). Matatias e seus amigos compreenderam a sabedoria dessa atitude (1 Mac. 2:44-48). E agora vinha Jesus, cujos serviços para os outros não tinha perspectivas de lucro: "o Filho do homem veio não para ser servido, mas para servir" (Mt 20:28). Uma vez, por ocasião da purificação do Templo, Ele empregou a força, como Neemias havia feito (Jo 2:15); isto teve seu efeito, estando de acordo com o espírito dos grandes (v. 18). Mas Ele jamais repetiu esse feito: nunca mais empregou a força em Sua maneira de tratar os homens, mas enveredou pela trilha de serviço que não levava a parte alguma — que insensatez do Filho do homem! Como podia Ele esperar, seguindo essa trilha, e durante a duração de uma vida, alcançar grandeza no sentido mundano?
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No entanto, há uma segunda maneira pela qual Jesus violou o ideal entesourado nos corações de Seus contemporâneos; um segundo ponto em que Ele exibiu uma falta de majestade, de grandeza, de elevação de alma — em suma, uma falta de tudo o que se esperava de um sábio. Para o mundo da época, Jesus parecia um louco, pelo fato de submeter-se ao destino que Lhe coube.
Na época de que estamos falando, a razão via duas maneiras pelas quais o espírito do homem podia alcançar domínio sobre o mundo exterior: mais uma vez, esse mundo exterior podia ser dominado ou ignorado. A princípio, com a impetuosidade da juventude, a filosofia grega tentou o primeiro destes caminhos. Mas quando isso levou ao desengano, os estóicos tomaram emprestada a sabedoria de Diógenes como sua máxima: o desdém para com o mundo exterior devia ajudar a mente a assumir uma posição de dignidade, elevando-a acima de tudo o que inquietava as sensibilidades ou emoções. Epíteto compara a vida a um banquete, e descreve o seu objetivo: "Se não tomas nada do que te é oferecido, mas o encaras com indiferença, serás não apenas um conviva, mas um governante na companhia dos deuses. Desta maneira Diógenes, Heráclito e outros semelhantes a eles, ganharam o epíteto divino que lhes foi atribuído." E a fim de que a sua pregação não contradissesse os seus atos, esse escravo antigo, cujo livro-texto compara-se aos melhores quanto ao seu ensino moral, dentre todos os livros da antiguidade, passou a viver na mais abjeta pobreza, mesmo depois de libertado; as suas únicas propriedades eram um banco, um travesseiro e uma lâmpada.
Entre os judeus também encontramos as mesmas duas formas pelas quais o espírito humano tentou estabelecer a sua superioridade sobre o mundo exterior. Davi e Salomão eram personagens brilhantes, tripudiando sobre nações; o esperado Filho de Davi devia exceder os Seus ancestrais a este respeito. Havia também as figuras selvagens, estranhas, vestidas de pelos de camelo e com um cinto de couro - mesmo antes dos dias do tisbita — cuja majestade consistia em escarnecer de tudo o que fosse terreno. Mas, o que dizer de Jesus? Onde O colocamos? A sua atitude faz lembrar muito a ampla mediocridade que não tinha muito de si mesma, mas que recebia tudo o que lhe era oferecido. Ele aceitou um convite para um casamento (Jo 2); desfrutou de todos os prazeres inocentes (Lc 15:23, 25b — no meio de uma parábola muito séria); Ele irritou os fariseus, tomando lugar à mesa do rico (Lc 5:29; 19:2,5); Ele não rejeitou o presente precioso, quase extravagante, da unção com perfume (Jo 12:5); Ele vestiu alegremente uma capa cara (Jo 19:23); Ele nunca foi uma prova contra pedidos insistentes; contudo, nunca desempenhou o papel de herói, no sentido em que o mundo o entendia. Ele manifestou cansaço, sentou-se (Jo 6:6); se tinha fome, Ele fazia o máximo para satisfazê-la, mesmo quando estava em viagem (Mt 21:18s.); quando teve sede, Ele pediu algo para matar a sua sede. Certa vez Alexandre derramou no solo magnanimamente um elmo cheio de água, quando a sua língua estava apegando-se ao céu da boca. Este Jesus por duas vezes pediu água, em circunstâncias em que o homem nobre, de sentimentos elevados, teria preferido morrer de sede; Ele pediu-a de uma mulher samaritana, e dos Seus carrascos.
Já falamos da posição dominante que os sábios da antiguidade deviam assumir, em desfrutar ou fazer uso do mundo exterior. Mas esperava-se que Ele, também, mostrasse como dominava este mundo, pela maneira como Se recusasse a permitir que o Seu coração fosse profundamente comovido pelas circunstâncias exteriores.
Cinco dias antes do Seu triunfo, Lucius Emilius Paulus, vencedor de Perseu, Rei de Macedônia, perdeu o seu filho mais jovem; e cinco dias depois da vitória, o seu filho mais velho morreu. No discurso ao povo, segundo o costume, aquele homem desolado disse: "Eu orei para que, se o infortúnio devia vir, que os deuses me visitassem a mim, e não ao meu país. A minha oração foi respondida. A minha tristeza teria sido ainda mais profunda se os deuses tivessem ferido a vocês." Isto pode parecer como bombástico ou como auto-promoção, porém verifica-se que era o que se esperava obviamente de qualquer homem que quisesse ser considerado "grande" naquela época. "Quando encontrares alguém lamentando-se," diz Epíteto, "não deixes de consolar a sua tristeza com palavras de razão, mesmo que precises chorar com ele. Mas impeça que o íntimo do seu coração seja atingido." "Ele gemeu no espírito" — é desta forma que o Evangelho (numa tradução literal) expressa a profunda emoção que apoderou-se de Jesus, diante do túmulo de Lázaro, forçando-o a derramar lágrimas (Jo 11:33). E Ele chorou também sobre Jerusalém (Lc 19:41), contrariando o conselho dado por Epíteto aos sábios: "O caminho da liberdade encontra-se em ignorar as coisas que não conseguimos controlar." Horácio diz que o melhor, quiçá o único meio de se alcançar a paz da mente, é não admirar nada e não se agitar por nada. Jesus ficou tão profundamente comovido com a morte de João, que partiu para o deserto, para ali recuperar a paz mental. (Mt 14:13). Em todos estes casos Ele Se demonstrou muito agitado pelo curso dos eventos, para ser considerado grande ou sábio segundo o juízo da Sua época.
Focalizemos agora uma questão muito importante: a da coragem de Jesus. Coragem (valor) é uma das quatro virtudes cardeais expostas por Platão. Quando medido segundo os padrões dos Seus contemporâneos, Jesus pareceu até certo ponto — embora não totalmente — desprovido de coragem. Podemos estudar mais detidamente, em primeiro lugar a Sua coragem na vida, e depois a Sua coragem na morte.
Os homens de maior resistência conhecidos pelos gregos eram os homens de coragem. Odisseus perdeu muita coisa — quase tudo — mas conservou a sua coragem, o seu ânimo. "Mesmo que os deuses me persigam pelos mares mais tenebrosos, eu o suportarei; meu coração se acostumou ao sofrimento." Aristóteles admite que o homem de sentimentos nobres não "se lança ao perigo por coisas pequenas" — ele também é consciente do seu próprio valor — contudo, acrescenta: "Mas por amor às coisas grandes, ele enfrenta perigos galhardamente, considerando a sua vida como nada, como se não valesse a pena viver." Um homem deve ter vergonha de ter medo. Mas quando à confiança em Deus experimentada pelos piedosos se acrescenta o valor humano, são forjados homens para quem o medo é um sentimento desconhecido. Neste sentido Paulo foi um homem destemido. Ele ergueu um monumento à sua coragem no capítulo 11 da sua Segunda Epístola aos Coríntios (vv. 24-27) - não por vaidade, mas em sua defesa própria. Em Jesus, pelo contrário, parecemos nos encontrar com cuidados que de forma alguma combinam com a varonilidade. Ele preferiu permanecer na Galiléia; fugiu para o deserto; chegou a recorrer ao território gentílico, constrangido em todos os casos pela Sua prudência (Mt 4:12; 12:15; Mc 11:19; Lc 21:37; Jo 7:1; 11:54). Chegamos a nos defrontar com a desagradável palavra "secretamente (Jo 7:10) e, o que é igualmente mau, "Jesus Se ocultou deles" (Jo 8:59; 12:36). Mais tarde, o Seu apóstolo protestou quando ia ser julgado secretamente, provavelmente sentindo que tal "sigilo" era aviltante (At 16:37). Para Neemias parecia pecado esconder-se (Ne 6:11,13). Aristóteles declara abertamente que "o sigilo é conhecido apenas dos medrosos." Não obstante, Jesus o praticou voluntariamente. Os Seus contemporâneos podem ter deplorado a falta de majestade e de grandeza nesta maneira de agir. Parecia que Lhe faltava coragem. Foi mais evidente a Sua coragem, quando chegou a hora da Sua morte?
Encontramos no mundo pagão exemplos esplêndidos de coragem em face da morte. As palavras de Sófocles podem servir como lema a este respeito: "Viver e morrer gloriosamente, estes são os deveres do homem nobre."
Pense nos guerreiros — em um Epaminondas, que em grande agonia, deixou o aço ficar na sua chaga, até receber notícias da vitória, quando ele o arrancou, com um grito de triunfo em seus lábios abatidos: "Já vivi o suficiente, pois morro invicto!". Em um Leônidas com os seus trezentos companheiros, que se ungiram e se adornaram quando perceberam que a morte lhes seria penosa; em um Agague, que aproximou-se de Samuel a passos largos, para receber o golpe de misericórdia, com os olhos fulgurantes e estas bravas palavras em seus lábios: "Certamente a amargura da morte já passou" (1 Sm 15:32). Deixando de lado os guerreiros, pensemos nos heróis da fé na antigüidade. Aqui podemos citar Sansão, derrubando as colunas do templo filisteu sobre a sua própria cabeça (Jz 16:29). Impavidum ferient ruinae: que as ruínas cubram um homem impávido. E também há os heróis da época dos macabeus. Quantas pessoas morreram alegremente naqueles dias (2 Mac. 6:27; 7:12, 30, 40)! Tanto o mundo judaico como o pagão manifestaram coragem ao morrer. No entanto, havia uma diferença entre eles: uma intensidade ligeiramente maior em um deles. O que Bulwer-Lytton diz em Os Últimos Dias de Pompéia, na excelente descrição que faz de um pagão e de um cristão, pode ser citada aqui, com pequenas alterações: "O pagão não recua; mas o judeu grita de alegria." Este último via a perspectiva de coisas melhores (2 Mac. 7:36).
E como foi que Cristo Se defrontou com a morte? No Getsêmane, a luta foi prolongada durante três atos; no entanto, no fim do segundo, e outra vez no término do terceiro, Ele alcançou somente resignação. Será que Sócrates, o estóico moribundo, não se saiu melhor do que isso? Vemos nele o medo da morte que é visível não apenas no Getsêmane, mas em palavras como as citadas por Lucas: "Tenho um batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mesmo se realize (Mt 26:37s.; Lc 12:50)? O relacionamento de Jesus com os discípulos foi o de um amigo que precisava de amigos: "Ficai aqui e vigiai comigo" (Mt 26:38). Aristóteles expressou a opinião da sua época, quando escreveu: "Para ter a mente elevada o homem não pode ter necessidade de ninguém, ou tê-la dificilmente." Na hora da morte, Sócrates foi tão grande que embora os seus discípulos estivessem precisando dele, ele não precisava deles. Jesus, em Suas últimas horas, sucumbiu completamente; Ele tropeçou sob o peso da cruz; Ele pediu água; e então ouviu-se o grito de angústia do fundo da Sua alma: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Isso assemelha-se à coragem em face da morte? Estaria o discípulo acima do seu Senhor quando, em circunstâncias similares, a face de Estêvão resplandeceu como a face de um anjo (At 6:15)?
A luz desta questão se torna ainda mais desfavorável quando consideramos o que significou essa morte tão elogiada — a redenção do mundo. "É doce morrer pela pátria" - os filhos mais nobres do mundo antigo expressaram estas palavras com atos, num espírito alegre. Para citar apenas um exemplo: quando Leônidas ficou sabendo através do oráculo que "ou cai a cidade, ou o rei morre," continuou com olhos fulgurantes, a fim de oferecer-se como sacrifício. Mas Jesus devia morrer pela humanidade — isso não devia ser ainda mais doce? No entanto, Ele manifestou tamanha debilidade de coração! Até nas reflexões de João, que mais se aproximam desse espírito de alegria (Jo 12:24; 14:27-30; 15:13-16), evidencia-se alguma apreensão e hesitação (Jo 12:27). Devia esse Homem ser considerado sábio, nobre, e de sentimentos elevados por Seus contemporâneos? Não. Ele lhes parecia ser um tolo em Sua submissão ao destino que Lhe sobreviera.
E agora, no fim deste capítulo acerca da insensatez do Filho do homem, consideremos ainda mais um ponto: a conduta de Jesus para com a Sua mãe. Como Ele pisou deliberadamente sobre os laços que unem os filhos aos pais, irmãos com irmãos! Não fora o próprio Deus que formara esses laços humanos naturais? E ali estava Jesus, asseverando que Ele viera para desfazê-los! O severo tisbita, certa vez permitira voluntariamente que Eliseu, o escolhido, voltasse ao lar pelo última vez para abraçar seu pai e sua mãe, ao despedir-se (1 Re 19:20). Mas este Jesus não permitiu nem que um filho voltasse ao lar para sepultar o seu pai (Lc 9:59; Tobias 4:3). A que extremos não iria o povo daquela época, para lançar uma porção de terra sobre o cadáver de um ente querido? A fama de Agostinho, nestas circunstâncias, não é imarcescível? (cf. Tobias 2:3,9). Sob que prisma a revolução desta forma introduzida por Jesus no pensamento religioso e moral da época colocou este Nazareno, aos olhos dos Seus contemporâneos, entre os nobres da época? Em resposta às súplicas de sua mãe, Coriolano voltou atrás quando havia chegado até às próprias muralhas de Roma. Entre os judeus sempre se considerara as grandes promessas que esperavam por aqueles que honrassem a seus pais (Ex 20:12; Ef 6:2). Em certa ocasião a mãe de Jesus também pensou que iria exercer o seu direito de maternidade sobre Jesus, durante a festa de casamento em Caná. Todavia, em termos claros, o seu Filho recusou-se a reconhecer-lhe qualquer autoridade nesse sentido (Jo 2:4). Um segundo encontro com Sua mãe nos parece ainda mais drástico. Ele estava em Cafarnaum, pregando em uma casa. Ela estava lá fora, — provavelmente depois de uma viagem, vinda de Nazaré — e, desejando falar-Lhe, mandou-Lhe um recado. E o que foi que Jesus fez? Respondeu ao mensageiro: "Quem é minha mãe?" E então, estendendo o braço em direção aos discípulos, disse: "Eis minha mãe!" (Mt 12:46ss.). Talvez mais tarde Ele tenha ido para vê-la. Porém, mesmo que Ele tivesse ido imediatamente, que prelúdio difícil haviam sido estas palavras, de um encontro com a mulher que Lhe havia dado à luz!
Jesus apareceu a inúmeras pessoas depois da Sua ressurreição, sendo a primeira delas uma mulher que estava necessitando de consolo. Mas nada nos é revelado de qualquer aparecimento para Sua mãe, que precisava de consolo mais de que qualquer outra pessoa. Essa conduta porventura teria parecido nobre aos humanos olhos dos Seus contemporâneos?
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Neste capítulo obrigamo-nos a provar que, pelo menos a alguns respeitos, a aparência que temos de Jesus não foi inventada por um grupo de judeus agradecidos e gentios extasiados, que Lhe atribuíssem entusiasticamente tudo o que eles sabiam ser nobre, grande e sábio, humanamente falando. Creio que ficou claro que o retrato de Jesus não contém nada da sabedoria da Sua época. Todavia, talvez seja possível provar que houve um pequeno círculo de pessoas, uma espécie de seita que se estava formando naqueles dias, que cultivava uma estranha preciosidade: uma espécie de perversão de sentimentos? Que diríamos se Jesus fosse
O fruto maduro de um jardim de emoções humanas assim peculiar? Que diríamos se as qualidades consideradas admiráveis por esse círculo singular Lhe tivessem sido atribuídas, e sob as mãos amorosas e adornadoras desse pequeno grupo de pessoas, Ele tivesse crescido, até tomar a forma que agora temos? Uma figura assim não acabaria sendo obra das mãos dos homens?
Tentemos, no capítulo seguinte, encontrar uma resposta para estas perguntas.
(Veja, no Apêndice, na p. 000, um estudo de "Duas Paixões:" a morte de Sócrates e a morte de Jesus.)